O inimigo está sendo identificado corretamente?
Penso que estamos denominando nosso inimigo de forma equivocada. Há anos, boa parte da direita brasileira concentra seu discurso no combate ao Comunismo e ao Socialismo, como se essas correntes fossem capazes de explicar tudo o que testemunhamos na política, na cultura e no comportamento social do Brasil.
Mas será que estamos combatendo o inimigo certo?
Na minha avaliação, não!
O que temos diante de nós não é simplesmente Comunismo ou Socialismo, mas algo que considero ainda mais degradado: uma espécie de subproduto ideológico que proponho chamar de Esquerdismo.
No sentido estrito da teoria política, o Comunismo pressupõe uma sociedade sem classes, sem Estado e com propriedade comum dos meios de produção. Atualmente, não existem países que tenham alcançado plenamente esse modelo. Entretanto, cinco países são frequentemente identificados como socialistas ou em transição para o socialismo, sob governos de partidos únicos de orientação marxista-leninista: China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte.
Vale esclarecer: ostentar um martelo e uma foice na bandeira não torna automaticamente um país comunista. Afinal, o Brasil mantém em sua bandeira cores associadas às casas reais de Bragança e Habsburgo, e nem por isso é uma monarquia.
Esquerda e Esquerdismo: uma distinção necessária
Ser de esquerda não é, por si só, um problema. Pensamentos divergentes enriquecem o debate e são salutares à democracia, como demonstra a convivência entre Democratas e Republicanos nos Estados Unidos. Uma pessoa pode ser socialista, comunista, social-democrata ou progressista e, ainda assim, preservar princípios morais, respeitar as instituições e valorizar a família, a dignidade humana, o patriotismo e a responsabilidade social.
O problema começa quando a ideologia se transforma em licença para destruir valores, relativizar o certo e o errado e justificar o injustificável.
Ser de esquerda é uma posição política legítima e aceitável. Ser adepto ao esquerdismo, na acepção que proponho neste artigo, é aderir àquilo que considero mais baixo, irracional e destrutivo para uma nação.
Compreender essa diferença é fundamental para identificar a dimensão do fenômeno que pretendo denunciar.
Uma ideologia sem compromisso com a coerência
O Esquerdismo não possui compromisso necessário com a coerência doutrinária. Não precisa respeitar os fundamentos do Socialismo, do Comunismo, do Islamismo, do Cristianismo ou de qualquer outra corrente de pensamento da qual se aproprie.
Seu método consiste em selecionar o que lhe convém — muitas vezes, o que há de mais perverso — em diferentes espectros políticos, sociais e religiosos, colocando tudo a serviço de uma agenda de desconstrução.
Apropria-se de discursos de igualdade, mas flerta com a intolerância. Invoca a liberdade, mas despreza quem pensa diferente. Utiliza a religião quando lhe convém, enquanto ataca tradições religiosas que considera obstáculos. Defende determinadas minorias, mas relativiza comportamentos e alianças incompatíveis com os próprios valores que afirma proteger.
Nem tudo aquilo que o Esquerdismo abraça é aceito pelo socialismo, pelo comunismo ou pelas tradições religiosas das quais tenta se apropriar.
Essa vertente seleciona, distorce e instrumentaliza elementos dessas doutrinas, sem compromisso com sua integridade. É, portanto, uma espécie de vale-tudo ideológico, marcado por contradições, conveniências e radicalismo.
As pautas e os comportamentos que caracterizam o Esquerdismo
O que caracteriza essa vertente é a disposição de transformar comportamentos e pautas moralmente controversos em instrumentos de militância, mesmo quando isso representa uma ruptura com valores fundamentais da sociedade.
Nesse contexto, identifico a aproximação política ou a relativização de organizações terroristas; a complacência com estruturas criminosas e com o narcotráfico; a defesa do aborto indiscriminado e de práticas como a assistolia fetal; a vulgarização do comportamento público; a relativização do abuso; a mentira como ferramenta política; e o desprezo pelos símbolos nacionais, pela pátria e pelas tradições.
Também fazem parte dessa agenda a desconstituição da família, a desvalorização da pessoa humana, o enfraquecimento dos vínculos comunitários e a desconstrução de valores sociais e religiosos.
Não afirmo que todo indivíduo de esquerda defenda essas pautas. Isso seria intelectualmente desonesto. Entretanto, o esquerdismo consegue abraçar a esquerda e camuflar-se dentro dela, representando um perigo até mesmo para quem se identifica com esse campo político.
Em períodos eleitorais, essa camuflagem pode levar pessoas de esquerda, por inocência, a votar em candidatos que acreditam ser representantes legítimos de suas ideias, quando, na verdade, representam a vertente ideológica que denuncio: o Esquerdismo.
É essa convergência em torno da relativização de princípios e da transformação da transgressão em virtude política que precisa ser denunciada.
A desconstrução como projeto político
Que projeto de sociedade pode surgir da normalização da violência, da desvalorização da vida, da banalização da mentira, da destruição dos vínculos familiares e do desprezo pela identidade nacional?
Reformar uma sociedade não significa destruir tudo o que veio antes. Questionar tradições não exige eliminá-las, assim como defender direitos individuais não significa desconstituir a família, desprezar a religião ou ridicularizar valores patrióticos.
Uma sociedade pode evoluir sem renunciar à própria identidade. É possível combater injustiças sem transformar criminosos em heróis, defender direitos sem desprezar deveres e discutir a legislação sobre o aborto sem banalizar a vida humana.
O Esquerdismo, entretanto, parece encontrar sua razão de existir justamente na desconstrução: da família, da autoridade, da tradição, da identidade nacional, das referências morais e religiosas e dos símbolos que conectam uma sociedade à sua história.
Mas, depois de destruir tudo isso, o que oferece no lugar?
Não basta ridicularizar valores e estimular conflitos. É necessário apresentar um projeto de sociedade capaz de substituir aquilo que se pretende eliminar. Quando a única proposta parece ser a negação permanente do que existe, o resultado pode não ser progresso, mas simplesmente o caos.
E o caos não escolhe suas vítimas por preferência ideológica. Atinge famílias, trabalhadores, instituições e comunidades, sobretudo aqueles que possuem menos condições de se proteger.
As contradições e as alianças convenientes
Uma das maiores contradições do esquerdismo está na capacidade de estabelecer alianças com movimentos cujas concepções entram em choque com pautas de liberdade individual, igualdade entre homens e mulheres e direitos de minorias que esses mesmos setores afirmam defender.
Como conciliar o discurso de defesa da vida com a banalização de sua interrupção? Como pregar tolerância e, simultaneamente, desprezar quem preserva valores tradicionais? Como falar em justiça enquanto se relativizam práticas criminosas por conveniência política?
Não afirmo que todo muçulmano, cristão, socialista ou comunista compartilhe dessas contradições. Pelo contrário: existem princípios nessas tradições frontalmente incompatíveis com determinadas pautas abraçadas pelo esquerdismo.
O que questiono é a ausência de critérios. Essa vertente não precisa acreditar integralmente naquilo que defende; basta que determinada bandeira seja útil em certo momento.
Um exemplo dessa aparente conveniência é o de um determinado chefe de Estado que, em momentos distintos, afirma ser socialista, demonstra simpatia pelo comunismo e, posteriormente, diz que nunca foi de esquerda.
Quando a conveniência substitui os princípios, a coerência deixa de ser requisito. E, sem coerência, qualquer aliança passa a ser possível.
Como a Direita deve enfrentar esse fenômeno?
Para compreender e enfrentar esse fenômeno, precisamos abandonar simplificações. Nem todo esquerdista é comunista; nem todo comunista é esquerdista no sentido aqui empregado; nem todo socialista defende a destruição dos valores tradicionais; e nem todo indivíduo de esquerda compactua com as manifestações extremadas que critico.
O problema não está simplesmente na posição que alguém ocupa no espectro político, mas naquilo que aceita defender, justificar e promover em nome de sua ideologia.
A Direita precisa compreender que derrotar eleitoralmente um partido não significa eliminar as ideias e os comportamentos que alimentam o esquerdismo. O enfrentamento também precisa acontecer nos campos cultural, moral, intelectual e político.
Precisamos defender a família, a pátria, a liberdade religiosa, o direito à vida, a responsabilidade individual, a dignidade humana, a autoridade legítima, os símbolos nacionais e nossas tradições.
Sobretudo, devemos recuperar a capacidade de afirmar que determinadas atitudes são inaceitáveis, independentemente de quem as pratique ou da bandeira utilizada para justificá-las.
Não se trata de impor uma religião ou uma ideologia, mas de preservar princípios que permitam à sociedade existir com liberdade, responsabilidade e respeito mútuo.
E agora, José?
Talvez tenhamos passado tempo demais combatendo rótulos e tempo de menos identificando comportamentos. Nosso erro pode ter sido acreditar que o adversário sempre se apresentaria com a bandeira vermelha do comunismo ou os símbolos tradicionais do socialismo.
O Esquerdismo que proponho identificar é muito mais difuso. Infiltra-se em discursos, movimentos, instituições e manifestações culturais, apropria-se de causas legítimas e esconde suas contradições atrás de palavras como igualdade, liberdade, diversidade e justiça.
Não podemos confundir a defesa legítima de direitos com sua exploração política, liberdade com libertinagem, tolerância com submissão ou progresso com destruição indiscriminada de valores.
Principalmente, não podemos confundir a esquerda, enquanto campo legítimo de pensamento político, com o esquerdismo que aqui denuncio.
A esquerda pode ter um projeto de sociedade. O Esquerdismo parece ter apenas um projeto de desconstrução.
Precisamos dar nome a esse fenômeno, discutir suas características e confrontar suas manifestações. Afinal, o maior erro de quem combate uma ameaça não é subestimá-la, mas não conseguir identificá-la.
Não é a esquerda, por si só, o nosso problema. É o Esquerdismo: a transformação da degradação em bandeira, da contradição em método e do caos em projeto político.
E agora, José?
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados