Como dois dos maiores filósofos alemães moldaram o pensamento moderno ao custo de um vazio existencial. E por que, 125 anos depois, a manipulação da irmã nazista de Nietzsche ainda ecoa?
Os filósofos alemães do século 19 são um caso à parte na história do pensamento. Dois nomes resumem a genialidade e a tragédia dessa escola: Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche.
A tristeza como método
Arthur Schopenhauer (1788-1860) era tristeza pura. Pessimista extremo, não tinha entusiasmo e via a vida como ela é: dura. Sua tese central ficou famosa:
“a vida é sofrimento”.
Schopenhauer via o mundo sem Deus. Por isso era tão triste. Não conseguia enxergar beleza em nada. Mas como todo grande filósofo, era profundo. Sua obra, publicada principalmente entre 1819 e 1859, influenciou diretamente a geração seguinte.
“A vida é como um pêndulo que oscila incessantemente entre a dor e o tédio.” — Arthur Schopenhauer
O discípulo que foi além
Friedrich Nietzsche (1844-1900) bebeu dessa fonte e foi ainda mais longe. Teve uma vida marcada por tragédias: filho de pastor luterano que morreu quando ele tinha só cinco anos, foi criado pela mãe, irmãs e tias num ambiente super religioso, contra o qual depois se rebelou.
Dele é a famosa frase “Deus está morto”, publicada em “A Gaia Ciência”, em 1882. Mas uma leitura atenta mostra que, no fundo, Nietzsche buscava compaixão. É o oposto do nazismo que pregaram usando o nome dele. Nem Schopenhauer nem Nietzsche eram cristãos.
“Ninguém pode construir para você a ponte sobre a qual você deve cruzar o fluxo da vida. Ninguém pode fazer isso além de você mesmo.” — Friedrich Nietzsche
A falsificação histórica
A irmã de Nietzsche, Elisabeth Förster-Nietzsche (1846-1935), era nazista fanática. Quando o filósofo morreu em 29 de agosto de 1900, ela assumiu o controle da obra dele. Distorceu textos, falsificou cartas e tentou associar o irmão ao nacionalismo alemão para ganhar poder político.
Por décadas, Nietzsche foi vendido como “filósofo do nazismo”. Mentira. Ele odiava nacionalismo e antissemitismo. A fraude só foi desmascarada por pesquisadores como Walter Kaufmann a partir da década de 1950, no pós-guerra.
O rompimento com Wagner
Prova disso foi o rompimento com Richard Wagner (1813-1883). Nietzsche foi amigo íntimo do compositor a partir de 1868, mas cortou relações definitivamente em 1878 por questões religiosas e ideológicas. Wagner abraçou o antissemitismo. Nietzsche não suportou e rompeu.
O cavalo de Turim
Um dos episódios mais marcantes da filosofia aconteceu em Turim, Itália, em 3 de janeiro de 1889. Nietzsche viu um cavalo sendo chicoteado na rua, correu, abraçou o animal chorando e gritou “eu te compreendo”.
Depois disso colapsou mentalmente. Entrou num silêncio de 11 anos até morrer, em 25 de agosto de 1900, aos 55 anos.
O preço do vazio
Os dois tiraram Deus da equação e o resultado foi um vazio existencial. Schopenhauer virou tristeza, Nietzsche virou grito. No fim, ele abraçou o cavalo. Compaixão. Talvez seja isso que faltava na filosofia deles: misericórdia.
Por que importa hoje
Estudar filosofia é fundamental, porque dá perspectiva das influências que moldaram gerações. É impressionante pensar que ensinamentos de Heráclito (540-480 a.C.), Sócrates (470-399 a.C.), Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), de 400 anos antes de Cristo, ainda reverberam e influenciam o mundo de hoje.
Genialidade e loucura andam juntas. E o debate sobre Deus, sentido e sofrimento continua atual, 126 anos após a morte de Nietzsche.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados




