Hoje cedo, minha esposa pediu que eu comprasse um xarope para a tosse.
Ela está se recuperando de uma forte virose e pretende tomar o medicamento por apenas mais alguns dias, até melhorar.
Perguntei se compensava comprar um frasco inteiro para tão pouco uso. Provavelmente, quando voltássemos a precisar dele, já estaria vencido. Foi então que uma pergunta aparentemente banal me levou para longe da prateleira da farmácia.
O que acontece com os milhões de medicamentos que vencem todos os anos?
São devolvidos?
São destruídos?
Quem controla esse processo?
Não estou afirmando que medicamentos vencidos sejam reaproveitados, reembalados e recolocados no mercado. Estou apenas mostrando como nasce uma dúvida quando o cidadão percebe que quase tudo em sua vida depende de sistemas que ele não consegue verificar por conta própria.
Posso ter certeza de que a bomba forneceu exatamente a gasolina pela qual paguei?
De que o pão não contém substâncias impróprias?
De que o litro de leite não recebeu adição de água?
De que o grande conglomerado de comunicação me entrega os fatos sem manipulação?
De que o candidato que me pede o voto realmente pretende cumprir o que promete?
De que países mais fortes não tentarão aproveitar nossa fragilidade política, estratégica e moral para avançar sobre as riquezas da Amazônia?
Vivemos apoiados sobre uma enorme rede de confiança.
Confiamos no laboratório.
Na farmácia.
No posto de combustível.
Na indústria alimentícia.
Na imprensa.
Na fiscalização oficial.
Na Justiça.
Nas empresas.
Nos políticos.
No Estado.
Não podemos investigar pessoalmente cada remédio, cada litro de combustível, cada alimento, cada notícia, cada contrato ou cada decisão pública. A civilização só funciona porque delegamos confiança. Mas confiança não é ingenuidade. Ela precisa ser merecida, fiscalizada e continuamente renovada.
Lembro-me de quando trabalhei, há muitos anos, num grande conglomerado empresarial que ostentava uma robusta estrutura de ética e compliance. Havia cursos de ética empresarial, normas, auditorias, controles e forte cobrança nos níveis técnicos e operacionais.
Tempos depois, porém, vieram à tona práticas de corrupção que alcançaram dimensão internacional. A lição foi dura.
Uma organização pode ensinar ética na base e negociar seus princípios no topo. Os controles podem ser rigorosos para o empregado comum e flexíveis para quem ocupa as posições mais altas.
Seria ingenuidade imaginar que esse risco exista apenas nas empresas privadas?
Toda organização humana — pública ou privada, religiosa ou laica, militar ou civil — precisa enfrentar permanentemente a distância entre os princípios que proclama e as práticas que efetivamente adota. E é justamente nessa distância que a confiança começa a apodrecer.
Quando o cidadão percebe que as regras não valem igualmente para todos, passa a desconfiar de tudo.
Do remédio.
Da gasolina.
Do alimento.
Da notícia.
Do voto e de sua contagem.
Da forma como as leis são produzidas.
Da maneira como a Justiça distribui a justiça.
Essa desconfiança generalizada também cobra um preço.
Ela encarece as relações.
Multiplica controles.
Alimenta o medo.
Destrói a cooperação.
Tudo isso alimenta o chamado “custo Brasil”
e transforma a vida coletiva numa permanente nuvem de riscos e incertezas.
Talvez uma das maiores pobrezas de uma nação não seja a falta de dinheiro,
mas a falta de instituições confiáveis. Porque, quando ninguém acredita em ninguém, até a verdade precisa apresentar documento, testemunha e reconhecimento de firma.
Quando a confiança desaparece, instala-se lentamente uma cultura de cinismo. É dela que nascem frases como: “Você finge que me paga e eu finjo que trabalho.”
Ou aquela outra, igualmente corrosiva: “Nem eu te, nem tu me…”
Esses velhos ditados populares talvez revelem mais sobre o desgaste moral de uma sociedade do que muitos tratados de sociologia. E o cidadão comum, cercado por coisas que não consegue verificar, acaba perguntando, entre perplexo e resignado: “Tem culpa eu?”
Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:
Quem responde pela confiança que se esvai todos os dias?
Porque uma sociedade pode sobreviver durante algum tempo sem riqueza.
Mas dificilmente sobreviverá sem confiança.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
