Há momentos em que permanecer é um ato de fidelidade. Há outros em que a distância também pode ser uma forma de serviço. Poucas decisões são mais difíceis do que distinguir uma da outra.
Tenho ouvido, de amigos muito queridos, uma recomendação insistente:
— Você precisa voltar a frequentar os quartéis.
Outro acrescentou:
— O Exército é maior do que as pessoas que hoje o ocupam.
Compreendo perfeitamente o sentimento. Talvez eles tenham razão. Mas não consigo responder a essa proposta apenas com saudade. Preciso responder com consciência.
Durante mais de trinta anos procurei servir à instituição da melhor forma que fui capaz. Recebi bem mais do que dei. Ali aprendi disciplina, espírito de corpo, liderança, sacrifício e lealdade. Ali também encontrei amigos que levarei para sempre. Nada disso desaparece.
Mas o tempo ensina outra coisa. Toda instituição criada para servir ao bem comum corre o risco de, em algum momento, passar a proteger mais a si mesma do que a missão que justificou sua existência.
Por isso, toda organização humana, por mais respeitável que seja, precisa olhar para dentro de si com coragem. Não para negar a própria história, mas para protegê-la. Talvez o maior risco institucional não esteja nas críticas que vêm de fora. Esteja na dificuldade de revisar honestamente seus mecanismos de formação, seleção, promoção e autocorreção.
Empresas, universidades, igrejas, tribunais, partidos e Forças Armadas compartilham esse risco. Nenhuma instituição está imune à tentação de explicar excessivamente os próprios erros, proteger excessivamente os seus ou transformar exceções em rotina.
Instituições vivem de regulamentos. Mas sobrevivem da confiança que inspiram.
Quando deixam de reconhecer seus erros ou tratam a crítica como deslealdade, perdem mais do que prestígio. Começam a perder legitimidade. E a confiança, uma vez ferida, não se recompõe por ordens do dia, solenidades ou discursos de ocasião. Precisa ser reconstruída por coerência, transparência, responsabilidade e verdade.
Preservar uma instituição não significa conservar intactos todos os seus métodos. Significa impedir que ela perca os princípios que justificam sua existência. Os métodos envelhecem. Os princípios, quando verdadeiros, precisam encontrar formas novas de permanecer vivos.
Não escrevo isso com ressentimento. Faço-o exatamente porque continuo acreditando no valor da instituição. A crítica honesta quase sempre nasce do desejo de preservar. Quem já não ama costuma simplesmente ir embora. Talvez por isso eu ainda escreva.
Alguns amigos acreditam que minha presença física nos quartéis ajudaria. Talvez. Não descarto essa possibilidade. Mas hoje me pergunto se minha maior contribuição não esteja em outro lugar.
Talvez existam fases da vida em que servir deixe de significar ocupar espaços e passe a significar produzir reflexão. Instituições militares não vivem apenas de quartéis, armas, edifícios, regulamentos ou cerimônias. Vivem, sobretudo, das consciências que conseguem formar. E nenhuma organização permanece grande por muito tempo se perder a capacidade de aprender consigo mesma.
No fundo, minha questão já não é apenas se devo voltar ao quartel. É outra: como continuar servindo sem renunciar à liberdade de pensar?
Essa pergunta conduz inevitavelmente a outra: minha consciência permite voltar como se nada tivesse acontecido?
Se a resposta for não, ignorá-la seria incoerente. Se um dia ela disser sim, voltar será igualmente legítimo. O importante é que a decisão não seja tomada por ressentimento nem por pressão dos amigos, mas por coerência interior.
Nenhuma Constituição, regulamento ou código consegue substituir completamente a consciência das pessoas encarregadas de aplicá-los. Antes de decidir, indivíduos e instituições precisam prestar atenção, perceber corretamente a realidade, discernir sua missão, escolher com responsabilidade e agir dentro de limites legítimos.
Talvez essa não seja uma pergunta apenas militar. Ela pertence a qualquer pessoa que ame uma instituição o suficiente para desejar vê-la melhor do que a encontrou.
Porque existem momentos em que permanecer é serviço. Existem outros em que a distância também é serviço. O que nunca pode desaparecer é a fidelidade aos princípios que deram sentido à caminhada.
Afinal, pertencer não é apenas ocupar um lugar. É continuar servindo à missão, mesmo quando muda o caminho escolhido para fazê-lo.
Há pessoas que servem ocupando um posto.
E há pessoas que continuam servindo porque se recusaram a abandonar a própria consciência.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
