Quando a ordem vira vergonha e a desordem vira explicação
A sociedade não está apenas sendo atacada pelo crime, está sendo educada para reagir mal ao ataque (Foto: Imagem Gerada por IA)

Quando a ordem vira vergonha e a desordem vira explicação

Antes de dominar territórios, a máquina do medo precisa desarmar moralmente quem ainda seria capaz de denunciá-la

Uma sociedade não começa a perder a luta contra o crime quando o primeiro território é ocupado.

Começa antes.

Começa quando as palavras deixam de descrever honestamente o que está acontecendo.

Quando aquilo que ameaça o cidadão já não pode ser chamado pelo nome sem que alguém se apresse em relativizar, atenuar, explicar, desviar ou censurar a indignação de quem sofre.

A desordem raramente chega anunciando que pretende dominar.

Ela chega acompanhada de intérpretes.

O medo passa a ser chamado de adaptação.
A omissão passa a ser chamada de prudência.
A tolerância com o intolerável passa a ser chamada de sensibilidade.
A incapacidade de proteger a vítima passa a ser chamada de complexidade.
A reincidência passa a ser tratada como fatalidade social.
O domínio criminoso passa a ser descrito como ausência histórica do Estado.
E a exigência de ordem passa a ser apresentada como se escondesse alguma vocação autoritária.

É assim que a linguagem pode deixar de servir à verdade e passar a servir à acomodação.

Ninguém precisa defender o crime abertamente.

Basta fazer com que a sociedade se sinta constrangida em condená-lo.

Basta transformar a vítima em detalhe emocional de um debate supostamente superior.

Basta convencer o cidadão de que exigir proteção é simplificar demais; de que pedir consequência é ceder ao ódio; de que nomear o agressor é falta de empatia; de que reclamar da desordem é pertencer ao grupo moralmente errado.

Quando esse processo se consolida, o criminoso ganha mais do que tolerância.

Ganha cobertura.

Não necessariamente cobertura formal, declarada, documental.

Ganha cobertura moral.

Aquela névoa de palavras que impede o cidadão de distinguir claramente quem ameaça sua vida, quem deveria protegê-la e quem está lucrando com a confusão entre as duas coisas.

Esse talvez seja um dos pontos mais graves da insegurança contemporânea.

A sociedade não está apenas sendo atacada pelo crime.

Está sendo educada para reagir mal ao ataque.

Educada para duvidar da própria percepção.
Para desconfiar da própria indignação.
Para se envergonhar do desejo de ordem.
Para moderar a voz diante do abuso.
Para oferecer compreensão infinita a quem a agride e paciência interminável a quem não a protege.

A linguagem, nesse ponto, deixa de ser apenas modo de falar.

Passa a ser mecanismo de controle.

Porque quem controla as palavras disponíveis controla também os limites do pensamento público.

Se não se pode chamar domínio de domínio, ele parece apenas desorganização.
Se não se pode chamar intimidação de intimidação, ela parece apenas tensão social.
Se não se pode chamar abandono de abandono, ele parece apenas dificuldade administrativa.
Se a ligação entre medo, dependência e poder não pode sequer ser examinada, ela continuará prosperando na sombra.

Não se trata de desprezar a complexidade dos problemas sociais.

Ela existe.

O crime não nasce do nada.
A miséria fere.
A desigualdade exclui.
A droga desagrega.
A ausência familiar fragiliza.
A escola abandonada falha.
O Estado ausente abandona cedo aqueles que depois talvez não saibam retornar ao caminho da vida comum.

Tudo isso exige seriedade, políticas públicas, inteligência, recursos e compaixão.

Mas complexidade não pode ser um salvo-conduto para a covardia.

Uma causa social não absolve um método criminoso.
Uma carência não legitima o domínio territorial.
Uma história de sofrimento não autoriza a imposição de medo a inocentes.
Uma política de inclusão não justifica que a vítima seja esquecida.
Uma preocupação com abusos do poder legítimo não autoriza a paralisia diante do poder criminoso.

A civilização não escolhe entre compreender e conter.

Ela precisa fazer as duas coisas.

Compreender para prevenir.
Conter para proteger.

Quando só compreende e não contém, entrega os inocentes ao agressor.

Quando só explica e não reage, produz uma sociedade que sabe descrever a própria ruína, mas perdeu a coragem de impedi-la.

É nesse terreno que determinadas autoridades começam a falhar de maneira especialmente grave.

A autoridade não existe apenas para pronunciar discursos corretos, editar normas, compor mesas de debate ou exibir sensibilidade diante das causas da violência.

Existe para proteger o cidadão submetido à ameaça concreta.

A mãe que espera o filho voltar.
O comerciante que fecha cedo.
O morador que conhece a rua que não deve cruzar.
A mulher que calcula o caminho à noite.
O idoso assaltado ou enganado.
A criança que cresce aprendendo que a praça não lhe pertence.
A família que vê a própria liberdade reduzida pela lei informal do medo.

É diante dessas pessoas que o discurso público deve prestar contas.

Quando a linguagem do poder oferece mais compreensão ao agressor do que amparo à vítima, alguma coisa já se deformou profundamente.

Quando as autoridades parecem recear mais a firmeza legítima do cidadão do que a expansão real do crime, a deformação deixa de ser retórica.

Passa a ser política.

E a pergunta inevitável surge:

por que a indignação de quem vive acuado incomoda tanto determinados setores do poder, enquanto a permanência das engrenagens que produzem medo recebe explicações, adiamentos e tolerâncias tão generosas?

Essa pergunta não pede linchamento verbal.

Pede honestidade.

Não está afirmando que toda autoridade omissa seja associada ao crime.

Não está dizendo que toda política social esconda má-fé.

Não está imaginando uma sala secreta onde todos os males do país tenham sido previamente combinados.

O que ela faz é mais simples — e talvez mais incômodo:

observa resultados.

Observa que o cidadão perde espaço.
Observa que comunidades perdem autonomia.
Observa que territórios permanecem submetidos ao medo.
Observa que o criminoso reincide.
Observa que a vítima se cala.
Observa que a ordem é tratada como suspeita.
Observa que a reação social é policiada no vocabulário, enquanto a violência concreta segue ampliando sua margem de ação.

E observa, sobretudo, que o medo prolongado não produz apenas sofrimento.

Produz dependência.
Produz silêncio.
Produz espaço para intermediários e oportunistas.

A consequência mais grave dessa marcha será enfrentada no ensaio final desta série.

A palavra “ordem” sofreu, por anos, um processo de desmoralização.

Para alguns, passou a significar repressão.
Para outros, permaneceu como slogan vazio.
Para muitos, tornou-se palavra perigosa, que convém evitar para não ser classificado, estigmatizado ou afastado do debate aceitável.

Mas ordem, no seu sentido civilizatório, não é violência.

Ordem é previsibilidade moral.

É saber que o fraco não será entregue ao forte.
Que a criança poderá crescer sem ser recrutada pelo medo.
Que a mulher poderá circular sem transformar cada deslocamento em cálculo de risco.
Que o idoso será protegido da brutalidade e da fraude.
Que o comerciante não trabalhará para sustentar a ameaça.
Que a família não precisará pedir permissão informal para viver.
Que o cidadão poderá falar sem sentir que denunciar o intolerável o torna culpado de alguma inconveniência política.

Ordem é o mínimo ético para que a liberdade exista fora dos discursos.

Por isso, quando a ordem vira vergonha, alguém ganha com essa vergonha.

Ganha o agressor que encontra menos resistência moral.
Ganha o grupo que controla territórios.
Ganha o intermediário que distribui favores.
Ganha a autoridade que evita ser cobrada por aquilo que deveria ter impedido.
Ganha toda estrutura que prefere cidadãos amedrontados a cidadãos livres e exigentes.

Quem perde é sempre o mesmo.

O cidadão comum.

Aquele que não possui escolta.
Não mora em condomínio inacessível.
Não se desloca protegido.
Não conta com telefone direto de autoridade.
Não tem para onde fugir quando a rua, o bairro ou a cidade começam a deixar de lhe pertencer.

Segurança, por isso, não é capricho de classe média.

Não é obsessão de gente intolerante.

Não é assunto secundário diante de temas supostamente mais nobres.

Segurança é a mais básica das políticas sociais, porque todas as outras dependem dela.

A escola não cumpre plenamente sua função onde o entorno pertence ao medo.
O posto de saúde não acolhe de verdade onde profissionais e usuários estão expostos à ameaça.
O comércio não prospera onde a extorsão compõe o custo.
A família não floresce onde cada saída é cercada de tensão.
A cidadania não amadurece onde o silêncio parece mais seguro do que a verdade.

Uma sociedade justa precisa combater as raízes da violência, sim.

Mas também precisa reconhecer que não há justiça em permitir que o inocente arque, sozinho, com o preço de todos os diagnósticos, hesitações e conveniências institucionais.

O mal não precisa ser odiado.
Precisa ser contido.

O agressor não precisa ser desumanizado.
Precisa ser responsabilizado.

A vítima não precisa ser usada como pretexto para brutalidade.
Precisa ser protegida.

A autoridade não precisa fazer espetáculo.
Precisa cumprir sua missão.

E a linguagem pública não precisa incendiar o país.
Precisa parar de apagar a verdade.

Porque há uma diferença entre pacificar e anestesiar.

Pacificar é restaurar limites, proteger inocentes, recuperar o que puder ser recuperado e devolver liberdade à vida comum.

Anestesiar é pedir calma a quem sofre, compreensão a quem perdeu, cautela a quem está acuado e silêncio a quem percebeu a engrenagem.

A anestesia pode manter a aparência de normalidade por algum tempo.

Mas, enquanto isso, a máquina trabalha.

Avança na rua.
Avança na linguagem.
Avança na dependência.
Avança no território.
Avança no favor.
Avança no voto.
Avança no próprio conceito de aceitável.

E, quando a sociedade finalmente percebe, talvez já tenha se acostumado demais à própria mutilação.

A série Insegurança Galopante não nasceu para pedir que as pessoas gritem mais alto.

Nasceu para que enxerguem melhor.

Para que percebam que o medo não se mantém apenas pela força de quem ameaça.

Mantém-se também pelo discurso de quem o normaliza, pela omissão de quem deveria contê-lo e pela conveniência de quem encontra poder onde os outros perderam liberdade.

Quando a ordem vira vergonha e a desordem vira explicação, o mal não precisa vencer uma guerra aberta.

Basta continuar ocupando, em silêncio, os espaços que a linguagem desarmou e a autoridade abandonou.

E talvez a primeira forma de resistência seja justamente esta:

parar de aceitar palavras bonitas para esconder aquilo que já está destruindo a vida comum.

Sobre Walter Felix

Walter Felix
Coronel Veterano do Exército Brasileiro, ex-Cmt 63 Batalhão de Infantaria, Dr. Engenharia de Produção (UFSC) e ex-Assessor Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-Diretor do COMDEFESA da Fiesp.

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