Quando o crime vira indústria de votos
A comunidade dominada não deve ser acusada. Deve ser libertada (Foto: Imagem Gerada por IA)

Quando o crime vira indústria de votos

O crime organizado não precisa substituir o Estado por completo. Basta controlar suficientemente a vida cotidiana para transformar medo, favor e silêncio em influência política.

Há um momento em que o crime deixa de ser apenas crime.

Não porque deixe de roubar, extorquir, ameaçar, traficar, enganar ou matar.

Mas porque passa a organizar a vida ao redor dele.

Define por onde se circula.
Define a que horas se fecha a porta.
Define quem pode abrir um comércio.
Define que serviço pode chegar a uma comunidade.
Define quem fala.
Define quem silencia.
Define quem recebe proteção.
Define quem paga pela ameaça.
Define, pouco a pouco, quem manda de verdade.

Quando isso acontece, já não estamos apenas diante de delitos repetidos.

Estamos diante de uma forma paralela de governo.

E todo poder que domina a vida concreta acaba procurando influenciar também a vida política.

A indústria de votos não nasce necessariamente de fundos clandestinos, de uma reunião secreta, de uma ordem explícita ou de uma urna vigiada por homens armados.

Ela pode nascer de maneira mais silenciosa.

Nasce quando uma população aprende que a própria segurança depende de não contrariar quem controla seu território.
Nasce quando o morador compreende que denunciar pode custar caro.
Nasce quando o comerciante percebe que sobreviver exige aceitar regras que não vieram da lei.
Nasce quando o cidadão se habitua a pedir favores em vez de exigir direitos.
Nasce quando alguém aparece para intermediar aquilo que o Estado deveria entregar diretamente: proteção, circulação, serviço, tolerância, acesso, benefício, paz relativa.

Nesse ambiente, o voto continua existindo.

Mas a liberdade que deveria sustentá-lo começa a definhar.

O cidadão livre escolhe.
O cidadão acuado calcula.

Calcula quem pode ajudá-lo.
Calcula quem pode prejudicá-lo.
Calcula qual silêncio é mais seguro.
Calcula se uma preferência manifestada será compreendida como afronta.
Calcula se vale a pena arriscar a tranquilidade precária da família por uma escolha verdadeiramente autônoma.

É assim que o medo pode começar a produzir voto.

Não sempre.
Não automaticamente.
Não de maneira absoluta.

Mas de forma suficientemente grave para que uma sociedade séria se recuse a fingir que não vê.

Uma pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizada pelo Instituto Datafolha, constatou que 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem, em seus bairros, a presença de grupos criminosos organizados ligados ao tráfico ou a milícias. Entre os que percebem essa presença, 64,4% têm medo de sofrer represálias por denunciar crimes e 59,5% evitam falar sobre política. O dado perturbador para a democracia é precisamente este: a presença criminosa não apenas ameaça corpos e bens; começa a restringir a palavra pública. [1]

Isso não prova que todo território dominado produza voto controlado.

Também não autoriza afirmar que toda liderança local seja criminosa, que toda política social seja instrumento de captura ou que toda população vulnerável vote sem liberdade.

Seria intelectualmente desonesto trocar uma cegueira por outra.

Pesquisa acadêmica sobre a geografia do voto das milícias na cidade do Rio de Janeiro indica que, embora existam concentrações de votos associadas a candidatos ligados a esses grupos, o controle territorial não garante domínio eleitoral absoluto. Há outros atores, resistências, disputas e escolhas que continuam existindo. [2]

Mas essa cautela não diminui o problema.

Ao contrário.

Mostra que a captura política pelo crime não precisa ser total para ser intolerável.

Basta que parte da população já não se sinta inteiramente livre para circular, denunciar, falar ou escolher.

Uma democracia não é saudável apenas porque consegue realizar eleições.

Ela precisa assegurar que o cidadão chegue à escolha política sem o peso invisível da ameaça sobre os ombros.

Porque há uma diferença profunda entre votar em alguém por convicção e votar em um ambiente em que determinados poderes controlam o bairro, a segurança, a circulação, o silêncio ou o acesso a favores.

O voto pode ser formalmente secreto.

Mas a vida ao redor dele pode estar cercada.

É nesse ponto que a insegurança deixa de ser somente consequência da incapacidade pública.

Ela se torna matéria-prima de poder.

O crime organizado compreende rapidamente algo que determinadas instituições demoram a admitir: uma comunidade dominada não precisa ser convencida de tudo. Basta ser mantida suficientemente vulnerável.

Quem vive com medo não pede transformação profunda.

Pede que não mexam com sua família.
Pede que o comércio continue aberto.
Pede que o filho atravesse a rua sem ser recrutado.
Pede que a casa não seja marcada.
Pede que a denúncia não retorne como punição.
Pede que o pouco de normalidade que ainda conserva não lhe seja retirado.

E quando a arte da sobrevivência ocupa todo o horizonte, a cidadania perde espaço.

A pessoa deixa de se relacionar com o poder como titular de direitos e passa a fazê-lo como alguém que precisa de permissão, proteção ou trégua.

Nesse terreno, surgem os intermediários.

O sujeito que “resolve”.
O agente que consegue entrada.
O benfeitor que distribui ajuda.
A liderança que obtém tolerância.
O político que não liberta a comunidade da dependência, mas aprende a administrá-la.

Nem sempre aquele que distribui o favor criou o medo.

Mas pode passar a lucrar politicamente com ele.

Nem sempre a autoridade que falha deseja que o crime avance.

Mas, quando falha por tempo suficiente, permite que outros preencham o vazio deixado pelo Estado.

Nem sempre a omissão é pacto.

Mas, quando seus resultados são permanentes, previsíveis e politicamente aproveitáveis, a sociedade tem o direito de perguntar se continua diante de mera incompetência.

A indústria de votos não depende apenas do criminoso que ameaça.

Depende também do vazio institucional que não liberta.
Depende da política que administra carência, mas não devolve autonomia.
Depende da linguagem pública que hesita em chamar domínio de domínio.
Depende da transformação do cidadão em cliente do favor, em vez de sujeito do direito.

O criminoso domina pela presença.
O oportunista lucra pela intermediação.
A autoridade omissa protege o mecanismo quando se acomoda à sua continuidade — proveitosa para todos os que exploram a desordem.

E a vítima permanece no meio da engrenagem, frequentemente obrigada a agradecer pelo mínimo depois de ter perdido o essencial.

É preciso compreender a gravidade disso sem cair em simplificações.

Comunidades pobres não são propriedades do crime.
Moradores de áreas vulneráveis não são cúmplices naturais de quem os intimida.
Beneficiários de políticas públicas não são rebanhos eleitorais por definição.

Seria injusto, cruel e falso tratá-los assim.

Muitas vezes, são precisamente as pessoas mais expostas à violência, à extorsão, ao recrutamento de jovens, ao fechamento de caminhos, ao silêncio imposto e à ausência real de proteção.

A comunidade dominada não deve ser acusada.

Deve ser libertada.

E libertar uma comunidade não significa apenas entrar nela com operação policial esporádica, produzir manchetes e retirar-se depois.

Significa assegurar presença legítima e continuada.
Significa impedir que o comércio seja tributado por poderes paralelos.
Significa proteger quem denuncia.
Significa garantir escola, transporte, serviço público e circulação sem tutela criminosa.
Significa fazer com que a política chegue como direito, e não como favor.
Significa devolver ao morador aquilo que o crime e a omissão lhe roubaram juntos: a possibilidade de viver sem pedir licença ao medo.

A resposta civilizada não está na vingança.

Não está na brutalização indiscriminada.

Não está em transformar cada morador em suspeito ou cada bairro vulnerável em território inimigo.

A resposta está em fazer o Estado voltar a ser mais presente, mais confiável e mais forte do que a ameaça.

Forte para proteger.
Inteligente para antecipar.
Honesto para reconhecer o que está ocorrendo.
Persistente para permanecer depois que as câmeras forem embora.
Responsável para entender que uma rua abandonada ao crime não representa apenas falha de segurança.

Representa perda de liberdade.
Representa risco de recrutamento.
Representa corrosão econômica.
Representa silêncio social.
Representa deformação política.
Representa um pedaço da democracia funcionando sob ameaça.

A série Insegurança Galopante começou perguntando a quem serve a insegurança.

Passou pelo instante em que o mal percebe que ninguém quer tocá-lo.

Depois mostrou o cidadão honesto reduzindo a própria vida para sobreviver.

Em seguida, examinou a linguagem que faz a ordem parecer vergonha e a desordem parecer explicação.

Agora, o círculo se fecha.

A insegurança serve ao criminoso quando lhe entrega vítimas.
Serve ao grupo armado quando lhe entrega território.
Serve ao intermediário quando lhe entrega dependência.
Serve ao oportunista político quando lhe entrega silêncio, gratidão forçada ou voto condicionado pelo medo.
E serve à omissão quando permite que tudo isso, embora já exiba uma face repugnante, continue sem nome, sem enfrentamento e sem consequência suficiente.

Por isso, o combate à insegurança não é apenas uma questão policial.

É uma defesa da cidadania.
É uma defesa da liberdade comum.
É uma defesa do direito de cada pessoa circular, trabalhar, criar filhos, denunciar abusos, formar opinião e votar sem que uma força clandestina — direta ou indireta — determine os limites da sua existência.

O crime nem precisa fechar as urnas para ferir a democracia.

Basta cercar a vida dos cidadãos antes que eles cheguem até elas.

E uma sociedade que aceita isso em silêncio talvez ainda continue realizando eleições.

Mas já terá começado a perder a liberdade que dá sentido a cada voto.

Referências de apoio

[1] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança [livro eletrônico]. São Paulo: FBSP, 2026. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/fbsp/303. Acesso em: 8 jun. 2026.

[2] LINS, I. N.; MACHADO, C. A geografia do voto das milícias na cidade do Rio de Janeiro. Teoria & Pesquisa: Revista de Ciência Política, São Carlos, v. 33, n. 00, e024008, 2024. DOI: https://doi.org/10.14244/tp.v33i00.1083. Acesso em: 8 jun. 2026.

Sobre Walter Felix

Walter Felix
Coronel Veterano do Exército Brasileiro, ex-Cmt 63 Batalhão de Infantaria, Dr. Engenharia de Produção (UFSC) e ex-Assessor Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-Diretor do COMDEFESA da Fiesp.

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