A quem serve a insegurança?
A insegurança contemporânea é diferente porque não se limita mais ao agressor que surpreende uma vítima em local desguarnecido (Foto: Imagem Gerada por IA)

A quem serve a insegurança?

Quando o medo deixa de ser consequência do crime e começa a funcionar como método de poder

Há algo profundamente humilhante em uma sociedade cercada pela criminalidade ouvir, como resposta principal, conselhos para se proteger melhor.

  • Tranque a porta
  • Não use o celular na rua
  • Não saia tarde
  • Não reaja
  • Não exponha sua rotina
  • Evite certos lugares
  • Desconfie das mensagens
  • Cuidado com os idosos
  • Cuidado com os filhos
  • Cuidado com tudo
  • Acostume-se.

Nada disso é inteiramente inútil. Em uma situação concreta, uma cautela pode evitar um golpe, uma invasão, uma abordagem ou uma tragédia.

Mas não confundamos prudência da vítima com solução do problema.

Quando a insegurança já tomou conta da rotina, dos trajetos, da vida digital, da convivência comunitária, das escolas, dos comércios, das famílias e até da liberdade de falar, oferecer apenas conselhos de autoproteção é quase servir canja de galinha a uma sociedade gravemente adoecida.

O cidadão pode melhorar a fechadura. Pode esconder o aparelho. Pode desconfiar da ligação. Pode aprender a viver em alerta.

Mas isso apenas confirma que alguém lhe retirou o direito elementar de viver normalmente.

O problema central já não é apenas o crime que assalta, invade, frauda, ameaça, estupra, sequestra ou mata.

O problema é o ambiente que permite ao crime crescer, adaptar-se, dominar, influenciar e, em determinadas circunstâncias, tornar-se útil para quem deveria combatê-lo.

A insegurança contemporânea é diferente porque não se limita mais ao agressor que surpreende uma vítima em local desguarnecido. Ela opera por processos. Explora rotinas, informações, fragilidades, necessidades, dependências e medos. O criminoso de hoje pode estudar a vítima antes de abordá-la; pode conhecer seu endereço, seus vínculos familiares, seus hábitos, sua vulnerabilidade financeira, sua solidão ou a hora em que estará mais assustada.

Mas essa modernização do crime é apenas uma parte da questão.

A outra parte, mais grave, é a repetição persistente de métodos criminosos sem contenção real, sem resposta proporcional e sem redução perceptível do domínio exercido sobre a vida comum.

  • Todo crime tem um processo;
  • Todo processo tem um método;
  • E todo método que se repete por tempo suficiente, com resultados semelhantes e impunidade recorrente, começa a revelar uma engrenagem.

É para essa engrenagem que precisamos olhar.

Durante muito tempo, fomos ensinados a tratar a insegurança como consequência quase natural de problemas sociais mal resolvidos: pobreza, abandono, exclusão, desestruturação familiar, vício, desigualdade, ausência de oportunidades e falhas históricas do Estado.

Tudo isso existe. Tudo isso importa. Tudo isso deve ser enfrentado com inteligência e humanidade.

Mas há uma diferença moral decisiva entre compreender as causas que alimentam a criminalidade e aceitar que o cidadão honesto seja entregue indefinidamente às consequências dela.

Explicar o agressor não pode significar abandonar a vítima.

Compreender a origem de um problema não autoriza tolerar sua transformação em sistema de domínio.

Quando o crime deixa de ser ocorrência e passa a organizar territórios, condutas, horários, serviços, favores e silêncios, ele muda de natureza. Já não ameaça apenas corpos e patrimônios. Passa a disputar a normalidade da vida comum.

É nesse ponto que a insegurança deixa de ser apenas drama policial.

Ela pode se transformar em matéria-prima de poder.

Não cabe ao ensaio-matriz antecipar toda a resposta. Cabe-lhe registrar a pergunta que já não pode ser evitada:

a quem serve uma sociedade permanentemente insegura?

Serve ao criminoso, evidentemente.

Mas pode servir também a quem administra a dependência sem devolver autonomia; a quem oferece tolerância onde deveria haver direito; a quem aprende a conviver com o medo alheio porque dele retira alguma vantagem.

Essa é a fronteira em que a omissão prolongada deixa de parecer apenas incapacidade.

Não se trata de acusar, sem provas, indivíduos determinados.

Trata-se de reconhecer processos.

Quando a vítima desaparece atrás de explicações intermináveis; quando a lei parece forte para conter a indignação do cidadão e frágil para conter quem o violenta; quando o domínio do medo avança sem constrangimento proporcional; quando a reação moral da sociedade é tratada como ameaça maior do que a própria criminalidade; então já não estamos apenas diante de uma política pública insuficiente.

Estamos diante da possibilidade de uma engrenagem em que a desordem produz poder.

Há também uma segunda camada dessa degradação: a linguagem usada para escondê-la.

Uma sociedade começa a perder a guerra contra a desordem quando perde a coragem de nomeá-la.

  • O medo passa a ser chamado de adaptação;
  • A omissão, de cautela institucional;
  • A tolerância com o intolerável, de sensibilidade;
  • A insegurança permanente, de complexidade social;
  • A indignação do cidadão honesto, de extremismo;
  • A exigência de ordem, de ameaça à democracia.

E, pouco a pouco, quem sofre é levado a acreditar que seu desejo de proteção é moralmente suspeito.

Esse é um dos triunfos mais perversos da máquina: fazer o cidadão honesto sentir vergonha de querer viver em paz.

Não se está propondo aqui brutalidade, revanche ou justiça pelas próprias mãos.

Uma sociedade que imita o crime para enfrentá-lo já começou a ser derrotada por ele.

Também não se está defendendo a indiferença social diante das causas da violência. Recuperar pessoas, prevenir a entrada no crime, proteger crianças, oferecer educação, reconstruir famílias e reduzir vulnerabilidades são obrigações de qualquer sociedade digna.

Mas a humanidade não pode ser sequestrada para justificar a rendição.

A compaixão que ignora a vítima não é elevada: é seletiva.
A justiça que não protege o inocente não é complexa: é defeituosa.
A autoridade que teme a firmeza diante do mal não é prudente: está renunciando a parte essencial de sua missão.

O Estado legítimo existe, antes de tudo, para impedir que a vida comum seja submetida à força, ao medo e ao arbítrio.

A segurança verdadeira começa quando o crime encontra limites; quando a vítima volta ao centro da preocupação pública; quando a lei deixa de ser apenas promessa; quando a autoridade serve ao inocente; quando as comunidades deixam de viver sob tutela do medo.

O drama brasileiro talvez esteja exatamente nisso:

  • a insegurança foi naturalizada como clima;
  • o medo foi incorporado como rotina;
  • a cautela da vítima foi vendida como resposta;
  • a omissão foi protegida por discursos;
  • e os processos que convertem desordem em poder ainda permanecem insuficientemente iluminados.

Esta série nasce para apontar luz nessa direção.

Não para acusar levianamente.
Não para incitar violência.
Não para oferecer soluções simplistas.
Mas para recusar a anestesia.
Para olhar além da ocorrência isolada.
Para identificar o método.
Para reconhecer a máquina.

A pergunta permanece: a quem serve a insegurança?

Quando o medo é apenas consequência de um crime, ele exige resposta.

Mas quando o medo começa a produzir dependência, silêncio e poder, a lucidez deixa de ser apenas opinião.

Passa a ser dever.

Sobre Walter Felix

Walter Felix
Coronel Veterano do Exército Brasileiro, ex-Cmt 63 Batalhão de Infantaria, Dr. Engenharia de Produção (UFSC) e ex-Assessor Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-Diretor do COMDEFESA da Fiesp.

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