Governança, transformação e desnível entre governantes e governados
É confortável imaginar que os problemas de um país têm sua origem principal em quem governa.
Troca-se o presidente.
Muda-se o partido.
Substituem-se ministros, governadores, prefeitos e parlamentares.
Renova-se o discurso e, por algum tempo, também a esperança.
Mas talvez exista uma pergunta anterior a todas essas mudanças:
Até que ponto um governo consegue transformar uma sociedade quando governantes e governados deixam de compartilhar um terreno mínimo de valores, expectativas e responsabilidades?
Não se trata de procurar governantes perfeitos.
Muito menos homens providenciais.
A História já mostrou suficientemente os riscos de imaginar que um país possa ser salvo apenas pela chegada de alguém extraordinário.
A questão aqui é outra.
Um governo pode tentar elevar padrões.
Pode reduzir privilégios.
Pode exigir maior responsabilidade.
Pode tornar determinadas condutas menos toleráveis.
Pode cobrar deveres que durante muito tempo foram esquecidos.
Pode tentar trocar soluções imediatas por escolhas mais difíceis, mas sustentáveis no longo prazo.
Mas até onde uma sociedade quer e consegue acompanhar esse movimento?
Talvez exista um limite para o desnível.
Não necessariamente um limite moral absoluto.
Um limite de compreensão, aceitação e capacidade de evoluir em cidadania.
O próximo degrau
Imaginemos novamente uma escada.
Uma liderança que queira produzir transformação não pode permanecer exatamente no mesmo degrau dos comportamentos que almeja modificar.
Se aceitar como naturais, por populismo, todos os vícios, hábitos e acomodações já existentes, não conduzirá transformação alguma.
Precisa bater-se para alcançar outro degrau.
Mas esse degrau precisa ser visível.
Uma liderança precisa estar suficientemente à frente para propor mudança, mas suficientemente próxima para que essa mudança ainda possa ser compreendida e incorporada.
Isso vale para muitos processos humanos.
A transformação consiste num processo que não acontece da noite para o dia.
Um professor não começa uma disciplina pelo último capítulo.
Um treinador não exige de um iniciante aquilo que espera de alguém preparado há anos.
Uma sociedade também não altera hábitos profundamente arraigados apenas porque uma nova regra foi publicada ou porque alguém declarou que aquilo seria melhor.
Transformação exige explicação.
Exemplo.
Educação.
Instituições.
Consequências.
E alguma adesão.
Isso não significa justificar atraso.
Significa reconhecer uma dificuldade elementar:
não basta que uma mudança seja correta. Ela precisa conseguir tornar-se praticável.
Quando o governo exige mais do que a sociedade pratica
Imaginemos um governo que decida elevar significativamente o padrão de comportamento público.
Reduz privilégios.
Aplica regras de modo mais uniforme.
Combate pequenas e grandes formas de favorecimento.
Exige maior responsabilidade no uso dos recursos públicos.
Recusa soluções populares quando considera que produzirão danos futuros.
Cobra deveres com a mesma intensidade com que reconhece direitos.
Não estamos imaginando governantes perfeitos.
Basta imaginar um padrão de exigência maior do que aquele ao qual parte significativa da sociedade está acostumada.
O que aconteceria?
Parte da população provavelmente apoiaria.
Outra parte poderia considerar as medidas excessivas.
Alguns diriam que o governo perdeu sensibilidade.
Outros, que não compreende “como as coisas realmente funcionam”.
A resistência talvez não surgisse apenas dos atingidos por grandes privilégios.
Poderia surgir também de pessoas comuns quando uma regra geral alcançasse uma pequena vantagem particular.
É nesse ponto que o problema deixa de ser apenas político.
Passa a ser cultural.
Porque queremos instituições rigorosas, mas às vezes pedimos exceção quando o rigor chega até nós.
Queremos igualdade perante a lei, mas gostamos quando uma relação pessoal encurta o caminho.
Queremos responsabilidade fiscal, desde que a renúncia necessária recaia preferencialmente sobre outros.
Queremos verdade, desde que ela não confronte demais aquilo em que já decidimos acreditar.
O desafio, portanto, não está apenas em formular boas políticas.
Está em criar condições para que padrões melhores deixem de parecer agressões e passem a ser reconhecidos como parte de uma nova normalidade.
Governantes e governados não vivem em mundos separados
Isso não significa aceitar a velha frase de que “cada povo tem o governo que merece”.
Ela simplifica demais a realidade.
Povos podem ser enganados.
Manipulados.
Intimidados.
Governados por estruturas políticas muito piores do que os valores médios da própria sociedade.
Também podem atravessar períodos de decadência institucional sem terem conscientemente escolhido cada consequência.
Mas seria igualmente simplista imaginar que tudo aquilo que acontece no topo nasce somente no topo.
A corrupção não começa apenas dentro de gabinetes.
A mentira política não sobrevive apenas porque alguém mente.
O privilégio não prospera apenas porque alguém o oferece.
Muitos desvios precisam de tolerância.
Silêncio.
Conveniência.
Interesse.
Ou resignação.
Há quem governe.
Mas há também quem escolha.
Quem apoie.
Quem aceite.
Quem rejeite.
Quem fiscalize.
Quem premie.
Quem se acostume.
Governantes e governados não são universos independentes.
Eles moldam o ambiente uns dos outros.
A pequena política de todos os dias
Talvez seja nesse ponto que a política fique desconfortavelmente próxima.
Ela também aparece na fila que alguém fura.
Na pequena vantagem considerada inofensiva.
Na informação falsa compartilhada porque beneficia o próprio grupo.
No funcionário que oferece uma facilidade.
No cidadão que aceita.
No empresário que compra influência.
No eleitor que abandona um princípio em troca de benefício imediato.
Nenhum desses comportamentos explica sozinho os grandes problemas de um país.
Mas todos ajudam a construir o ambiente moral em que a política funciona.
Por isso talvez devamos acrescentar uma pergunta àquela que fazemos com tanta facilidade:
“Por que nossos governantes são assim?”
Talvez seja necessário perguntar também:
“Que comportamentos nós continuamos premiando?”
Essa segunda pergunta incomoda mais.
Porque retira de nós a tranquilidade da arquibancada.
Se todo o problema estiver nos políticos, basta indignar-se.
Se parte dele também estiver nos hábitos que toleramos, então aparecem responsabilidades menos confortáveis:
Dar exemplo.
Fiscalizar.
Recusar facilidades indevidas.
Cobrar coerência.
E deixar de premiar em privado aquilo que condenamos em público.
O governo também educa
Seria injusto, porém, colocar toda a responsabilidade sobre a sociedade.
O movimento ocorre nos dois sentidos.
Governos podem criar incentivos injustos.
Instituições formam hábitos.
Leis alteram custos e consequências.
Exemplos vindos de cima podem ampliar — ou destruir — padrões de comportamento.
Um governo pode elevar expectativas.
Pode reduzir a tolerância com certos desvios.
Pode tornar a honestidade institucionalmente mais vantajosa.
Pode ampliar o horizonte de uma geração.
Mas também pode fazer o contrário.
Pode ensinar que a regra é flexível.
Que o resultado justifica o método.
Que amigos merecem tratamento diferente.
Que mentira repetida suficientemente passa a valer como instrumento legítimo.
Por isso a relação não é de superioridade de uma parte sobre a outra.
É de influência recíproca.
Governantes influenciam governados.
Governados escolhem, sustentam ou rejeitam governantes.
E ambos podem melhorar — ou piorar — juntos.
A política também tem velocidade
Talvez uma das dificuldades da boa governança esteja justamente aí.
Há mudanças que podem ser feitas por decreto.
Outras, por lei.
Algumas dependem de novas instituições.
Mas hábitos coletivos não obedecem ao calendário administrativo.
Mudar um governante pode acontecer em uma eleição.
Mudar uma cultura pode exigir uma geração, talvez várias.
Isso cria uma tensão permanente.
Se o governo exigir pouco, pode apenas administrar os vícios existentes.
Se exigir demais, sem conseguir explicar, convencer ou construir condições para a mudança, pode gerar rejeição antes que a transformação tenha tempo de amadurecer.
A boa governança talvez precise lidar não apenas com o que deve mudar, mas também com a velocidade em que uma sociedade consegue se transformar sem romper a própria capacidade de cooperação.
Então, quanto melhor?
Voltamos à pergunta inicial.
Quanto melhor pode ser um governo do que o seu povo?
Talvez essa nem seja mais a formulação exata.
A questão não é saber quanto um governante pode ser moralmente superior aos governados.
É saber quanto de distância pode existir entre aquilo que um governo exige e aquilo que a sociedade já consegue compreender, sustentar e praticar.
Um bom governo não precisa refletir passivamente todos os hábitos de seu tempo.
Se fizer isso, dificilmente ajudará a sociedade a avançar.
Mas também não consegue governar como se a população que existe pudesse ser substituída por outra mais conveniente.
Precisa partir da realidade.
E apontar além dela.
Compreender a realidade não é conformar-se com ela. É conhecê-la o bastante para transformá-la.
Talvez a verdadeira liderança política esteja justamente nesse intervalo.
Não na acomodação.
Nem na ruptura.
Mas na capacidade de transformar o ideal em próximo degrau possível.
Porque sociedades raramente avançam quando alguém simplesmente lhes mostra o topo da escada.
Avançam quando conseguem enxergar o próximo degrau —
e encontram razões suficientes para subir até ele.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados

