Barcos do artista Di Cavalcanti
Fotos: obras do acervo particular

Carlos Perktold, crítico de arte renomado, une arte e psicanálise no cenário brasileiro

Carlos Perktold é um crítico de arte brasileiro renomado, conhecido por sua paixão e conhecimento profundo sobre a arte e a psicanálise. Com uma carreira dedicada à crítica de arte, Perktold tem sido uma voz influente no cenário artístico brasileiro, trazendo insights valiosos sobre a relação entre a arte, a psicanálise e a sociedade.
Com uma abordagem única e perspicaz, Perktold explora temas como a influência da psicanálise na crítica de arte, o papel da arte na sociedade contemporânea e a relação entre o artista e sua obra. Sua perspectiva é marcada por uma profunda compreensão da arte como uma expressão do talento, da garra e da determinação do artista.
Perktold é um defensor da importância da educação e da formação do olhar do espectador para apreciar a arte, e acredita que a crítica de arte deve ser uma ferramenta para educar e inspirar, e não apenas para julgar.
Com sua vasta experiência e conhecimento, Carlos Perktold é um nome respeitado no mundo da arte brasileira e internacional, e sua opinião é frequentemente buscada por artistas, colecionadores e entusiastas da arte.
 
– Como a psicanálise influencia sua crítica de arte? Você acredita que a arte pode ser uma forma de expressão do inconsciente? 
Apaixonei-me pela psicanálise e pela arte desde jovem. A primeira propõe às pessoas se conhecerem e, a partir desse autoconhecimento, aumentar sua empatia, compreender o outro e, com isso, se tornar um ser humano melhor. Ela também aumenta sua cultura e seu desenvolvimento verbal. Esse desejo de ser uma pessoa melhor era de minha geração. Hoje, as pessoas estão mais interessadas em um novo celular cheio de aplicativos e muito poucos se preocupam com aquilo que minha geração se preocupava. Ninguém pode afirmar que a arte vem do inconsciente. Ela vem do talento, muita garra e determinação e muito, muito trabalho. É possível que essa minha resposta entre para o bestiário do ano 2200 se alguém até lá descobrir a conexão entre o inconsciente e a arte.O inconsciente é uma ideia, uma proposta teórica. Ninguém nunca o viu, mediu ou tem certeza de sua existência, exceto aqueles que passaram pelo divã e descobriram a força imperativa da associação livre e seu resultado. Assim, é possível que a arte possa ser uma expressão do inconsciente, mas não há nenhuma garantia disso e menos ainda que foram os inconscientes de Van Gogh ou de Artur Bispo que os tornaram o que são.
– Qual é o papel da arte na sociedade contemporânea? Você acha que a arte tem um papel social ou político?
A arte de hoje, chamada contemporânea, está tomando um caminho muito estranho, que faz qualquer um achar que seu trabalho é lindo porque é “arte contemporânea.”  Isso não se passa assim. São pouquíssimos os artistas contemporâneos que ficarão para as próximas décadas ou próximos séculos. Ela é o reflexo de cada época e a nossa é de uma tristeza profunda pela agressividade, guerras, falta de humanismo, etc.  Daí tanta bobagem sendo apresentada em bienais, galerias e leilões como arte. Não são. Quando menciono melhorar as pessoas não quer dizer que um psicopata morando em um museu importante, deixará de ser quem ele é. Melhoram as pessoas que já são boas e sensíveis ao belo. Por certo ela tem um papel político, mas no Brasil são poucos os artistas engajados que são capazes de produzir um conjunto ou uma obra significativa politicamente como é Guernica de Picasso (guardadas as devidas proporções, claro). Durante os anos de chumbo, a criação artística foi muito maior que hoje por que a censura e a pressão política de então geraram arte cheia de  metáforas que nos deixaram encantados pela riqueza cultural.
– Como você avalia a relação entre o artista e sua obra? A biografia do artista influencia sua interpretação da obra?
Conheço colecionadores que não compram obras de nenhum artista com menos de 50 anos de idade. O que eles querem dizer com esse comportamento é que o artista com talento e chamamento dos deuses para atuar na área precisa ter passado por “n” vicissitudes da vida, que a maioria não resiste e para pelos caminhos da vida. Em Belo Horizonte há “artistas” premiados que pararam aos 35 anos de idade por que não aguentaram a dura vida de artista ou por que se esgotaram artisticamente. Assim, a biografia é fundamental por que, se ele continuou produzindo, há um desejo avassalador que o impulsa para essa direção artística, mesmo que ela viva cheia de vazios, de apertos financeiros e de dificuldades pela incompreensão de sua obra.
 
– O que é que torna uma obra de arte valiosa? É o valor estético, histórico ou emocional?
Ah, muitas variantes determinam o preço de uma obra, mas, neste momento, o mais importante é o marketing. Vejo pintores com pouco valor artístico cobrando caro pelas suas peças. A dificuldade virá no futuro porque com o desenvolvimento do olhar do espectador, ele vai descartá-la em poucos meses ou alguns anos. A obra é boa quando ela incomoda, agrada, desagrada, é bonita mesmo com conteúdo assustador,  tem elementos bem colocados que transformam a composição em algo equilibrado, tem ritmo cujo conjunto nos deixa apaixonados e loucos para tê-las conosco de forma permanente. Por isso, compramos. O que é bom, fica.
– Como a história da arte pode nos ajudar a entender melhor a psicanálise? Existem paralelos entre a evolução da arte e a evolução do pensamento psicanalítico? Não vejo nenhum caminho que nos ajude a entender a psicanálise e a arte, exceto em casos como a escola surrealista, desde sempre influenciada por Freud. A arte está presente nas cavernas na França há quarenta mil anos. A psicanálise foi criada há 120 anos e anda perdendo prestígio. Este voltará, claro, quando as pessoas voltarem a se preocupar em ser uma pessoa melhor. Por enquanto, a tecnologia matou o humanismo.
– Qual é o impacto da tecnologia na criação e consumo de arte? A tecnologia está mudando a forma como experimentamos a arte?
Certamente que sim. O que há de novidades espalhadas pelo mundo de novas formas de arte é impossível descrever, mas cito a possibilidade hoje de você projetar em imagem no seu living o quadro que quiser, cujo original está em algum museu importante. Há pessoas que ficam contentes com isso, outros querem ter o original e pagam milhões por ele. Afora isso, há sempre as antigas gravuras  que, pela quantidade impressa,  ajudam a difundir a arte e o consumo.
– Como você vê a relação entre a arte e a loucura? A loucura pode ser uma fonte de inspiração para a criatividade?
O sempre lembrado Van Gogh tinha um diagnóstico psicopatológico de difícil definição até hoje. No entanto, ele fez um trabalho maravilhoso e é reconhecido pela humanidade. Arthur Bispo do Rosário no Rio de Janeiro criou peças lindas e era esquizofrênico com diagnóstico definido. Ninguém pode afirmar que sem os diagnósticos eles não teriam criado tudo que fizeram. É uma ilusão alguém imaginar que todos os doentes mentais têm talento e fazem um trabalho lindo. Essa possibilidade de ocorrer é muito, muito remota.  Eles não fazem por que não dão conta, tamanha é a desorganização mental. Além disso, a avassaladora maioria não tem talento. O Museu do Inconsciente, criado pela Dra. Nise da Silveira, tem milhares de peças de vários internados que desenhavam, pintavam e esculpiam. Não conheço todo o acerto, mas acredito que nem mesmo 0,01% seja obra de arte. Eles tinham todas essas atividades porque é difícil dar ocupação para internos de hospitais psiquiátricos. O que fazer com eles o dia inteiro ? Foi dessa questão que nasceu a ideia de ocupá-los com desenhos, pinturas e esculturas e em torcer para que aquelas atividades funcionassem como terapia, como catarse.  A doença mental é algo horrível e não cria inspiração alguma.
– O que é que você procura em uma obra de arte? Qual é o critério para você considerar uma obra de arte como “boa”?
Ah, você está me pedindo para dar uma receita que não existe objetivamente. Aconselho aos interessados em formar uma pinacoteca a visitar museus, folhear livros de arte, frequentar galerias e leilões, ler muito sobre arte, incluindo catálogos de exposição e mais o que puderem. Com o tempo, as visitas e leituras, chegará o momento de um “click” interno no qual você compreende, sente, vê uma obra e tem certeza que a peça é ruim ou é boa. Se ela é boa, é perceptível que o artista sabe o que são cores complementares, número de ouro e se ele o usou na composição, se ela tem ritmo e o todo da obra é bom, mesmo pequenas partes da peça. O quadro bom é bom na sua totalidade.
– Como a arte pode nos ajudar a entender melhor a condição humana? A arte pode ser uma forma de terapia ou autoconhecimento? 
A arte pode nos tornar as pessoas melhores, como disse acima, mas não é uma forma de autoconhecimento ou de terapia. Se for uma terapia, o resultado é uma catarse, nunca uma obra de arte.
– Qual é o futuro da crítica de arte? Como você vê a crítica de arte evoluindo nos próximos anos?
Ah, essas previsões são difíceis em qualquer atividade intelectual. Pra você ter uma ideia da dificuldade, lembre-se que o público carioca somente aceitou a pintura abstrata a partir de 1950, e olha que a Semana de Arte Moderna foi em 1922, ali pertinho de São Paulo. Em geral, passaram-se muitos anos até que alguém chamasse a atenção sobre novas escolas ou novos pintores, não somente no Brasil. A França está cheia de fatos incompreensíveis aos nossos olhos de hoje, em especial nas artes. No Brasil houve críticos literários que falaram mal de Grandes Sertões: Veredas, de Guimarães Rosa. A maioria dos impressionistas, neo-impressionistas, cubistas e surrealistas demoraram muito pra ser compreendidos, aceitos e admirados.
Fotos: obras do acervo particular
Barcos do artista Di Cavalcanti
Fotos: obras do acervo particular

Mulata do artista Di Cavalcanti

Flores, do artista Guignard

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Carlos Perktold no retrato do artista Miguel Gontijo

Flores, quador do artista Burle Marx,

Autoretrato Guignard

.Sabará, obra do artista Guignard

.Obra do artista Vicente do Rego Monteiro (2)
.Bonecos surrealistas do artista Gruber

Sobre Arilda Costa McClive

Arilda Costa McClive
Jornalista, fotógrafa e curadora de artes radicada nos EUA. Há 20 anos escreve sobre cultura, artes e entrevistas para o Brazilian Times Newspaper onde assina em coluna social. Em 2015 recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Brasileira de NY, por promover a cultura brasileira em nível de excelência. É associada fundadora da AJOIA Brasil.

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