Martha de Sousa
Martha de Sousa

O Gargalo Invisível da Performance

Por que empresas de alto nível estagnam mesmo com boa estratégia

Entrevista com Martha de Sousa, Executive Leadership Strategist

Em um mercado onde a estratégia virou commodity, o verdadeiro diferencial competitivo migrou para a precisão da liderança. Mas o que acontece quando o próprio topo da pirâmide se torna o gargalo invisível da operação? Nesta entrevista exclusiva, Martha de Sousa, estrategista de liderança executiva e criadora do Executive Precision 360™, disseca por que empresas de alto nível estagnam em platôs de performance e como o desalinhamento dos líderes drena a margem e a agilidade do negócio. Para ela, o limite de uma organização não está no mercado, mas no seu sistema operacional de liderança.

– Você trabalha com executivos seniores. Que problema eles, de fato, estão tentando resolver quando te procuram?

Raramente recebo um líder com algo “quebrado” ou em crise explícita. O perfil que me procura é aquele que já opera em alto nível, mas percebe que o negócio atingiu um platô de performance. Eles sentem que existe um gap entre o potencial de entrega da organização e o que chega, de fato, na última linha do balanço. Na maioria dos casos, o diagnóstico é o mesmo: o problema não está na estratégia — o plano geralmente é sólido — e nem na execução em si. O gargalo reside na forma como a liderança opera e nas interferências que ela gera no sistema.

O Gargalo Invisível da Performance
O Gargalo Invisível da Performance

– Por que você afirma que o problema está na liderança e não na execução ou na estratégia?

Porque a execução é apenas o sintoma; a liderança é a arquitetura que a sustenta. Quando a execução falha, o instinto tradicional é ajustar processos, ferramentas ou trocar a equipe. Mas esses são efeitos. O que realmente compromete a entrega é a qualidade da tomada de decisão, a clareza na definição de prioridades e, principalmente, como a comunicação orienta o sistema. Se a liderança não é coerente, a empresa passa a compensar a falta de fluidez com esforço bruto. Isso gera um custo invisível de fricção que drena a velocidade e a margem do negócio.

 Me dê um exemplo concreto de como isso aparece dentro de uma organização.

Imagine uma empresa com uma estratégia clara, mas onde os diretores comunicam prioridades de formas ligeiramente diferentes. O impacto na ponta é devastador: times trabalhando em direções distintas, decisões críticas sendo revisitadas semanas depois e uma perda de tração generalizada. Externamente, parece uma falha de coordenação. No entanto, o problema real é a falta de coerência no topo. Isso não é apenas uma questão de gestão de pessoas; é um problema de eficiência operacional que impacta diretamente o EBITDA.

– O que você faz, na prática, quando entra nesse contexto?

Eu não parto do diagnóstico que o executivo acredita ter; eu foco no impacto que a liderança dele imprime no sistema. Na prática, eu busco as fissuras na operação: onde as decisões estão sendo represadas? Por que as mensagens estratégicas chegam distorcidas na ponta? Onde o esforço das áreas está sendo anulado por falta de sincronismo? Quando identificamos e removemos essas interferências no comportamento da liderança, o efeito dominó é imediato. As decisões tornam-se mais precisas, a execução ganha ritmo e o resultado financeiro torna-se uma consequência natural da fluidez operacional.

– Quando você fala em melhora de resultado, como isso aparece de forma objetiva?

Aparece na redução drástica do retrabalho e na aceleração do ciclo de decisão. No médio prazo, isso se traduz em maior previsibilidade de resultado e melhora na margem operacional. Não estamos falando de um trabalho comportamental subjetivo, mas de um ajuste fino na engrenagem de performance. Se a liderança opera com precisão, o sistema responde com eficiência.

– Que tipo de executivo costuma buscar esse nível de intervenção?

Líderes que gerenciam estruturas complexas e que entenderam que, nesse nível de maturidade, pequenos desalinhamentos no topo geram consequências exponenciais na base. São executivos que não estão dispostos a deixar performance na mesa e que buscam escala com consistência.

– Existe um padrão comum entre líderes que sustentam alta performance ao longo do tempo?

Sim: a consistência estrutural. Existe um alinhamento absoluto entre o que o líder pensa, o que ele comunica e o que ele efetivamente reforça no dia a dia. Quando essa coerência é estabelecida, a organização ganha clareza e autonomia. O time para de “adivinhar” o que é prioridade e passa a executar com velocidade e qualidade.

– Você fundou e presidiu a ABRH no Rio Grande do Norte. Como essa experiência influencia o seu trabalho hoje?

Essa vivência me permitiu observar a liderança sob a ótica de sistemas em escala. Quando você lidera uma instituição desse porte, para de olhar apenas para indivíduos e passa a identificar padrões que se repetem entre organizações de diferentes setores. Isso me deu a base para entender que os problemas de performance raramente são isolados; eles são reflexos de como a estrutura de liderança está desenhada.

– Você também atua fora do Brasil. O que muda quando trabalha com executivos nos Estados Unidos e em outros mercados?

O que muda é o nível de tolerância à ineficiência. Em mercados como o americano ou europeu, o desalinhamento aparece mais rápido e custa muito mais caro em termos de competitividade. Isso exige de mim uma objetividade ainda maior e uma precisão cirúrgica na tomada de decisão. O contexto cultural muda, mas o padrão de impacto da liderança sobre a performance é universal. O sistema responde com a mesma lógica, o que muda é a velocidade da resposta.

– Você evita rótulos como
coaching ou consultoria tradicional. Por quê?

Porque o que eu resolvo não se soluciona com pacotes de prateleira ou metodologias genéricas de desenvolvimento. O valor do meu trabalho está na precisão da leitura e na coragem da intervenção direta. Quando um CEO tem um vazamento de performance, ele não quer uma aula teórica; ele quer identificar o ponto exato da fissura e estancá-la. É uma questão de acuidade, não de formato.

– Qual é o risco para uma empresa que ignora essa dimensão da liderança?

O risco é a mediocridade sustentada. A empresa continua operando abaixo do seu potencial real, drenando a energia do time com um esforço que não se converte totalmente em resultado. No longo prazo, isso compromete não apenas o crescimento, mas a própria competitividade e relevância da organização no mercado.

– Qual a pergunta mais importante que um executivo deve se fazer agora?

A questão é simples: o resultado que você entrega hoje reflete o potencial real do seu negócio ou você sente que a liderança está, de alguma forma, limitando essa performance? Na maioria das vezes, o limite não é o mercado ou a economia; o limite está dentro do próprio sistema operacional da liderança.

Sobre Arilda Costa McClive

Arilda Costa McClive
Jornalista, fotógrafa e curadora de artes radicada nos EUA. Há 20 anos escreve sobre cultura, artes e entrevistas para o Brazilian Times Newspaper onde assina em coluna social. Em 2015 recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Brasileira de NY, por promover a cultura brasileira em nível de excelência. É associada fundadora da AJOIA Brasil.

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