Estamos desaprendendo a nos importar?
As redes sociais nos convenceram de que estar conectado é suficiente: não é (Foto: Imagem Gerada por IA)

Estamos desaprendendo a nos importar?

“Nunca tivemos tantas formas de nos comunicar. Talvez nunca tenhamos nos sentido tão ignorados.”

Vivemos a era das respostas instantâneas, visualizamos mensagens em segundos, reagimos com emojis, compartilhamos causas, curtimos campanhas, publicamos indignação. Mas, curiosamente, estamos cada vez mais lentos para aquilo que realmente importa: responder às pessoas.

Não responder uma mensagem pode parecer um detalhe, mas, às vezes, é exatamente ali que alguém percebe o quanto deixou de ser importante para nós.

Nesta semana ouvi um relato que me fez pensar.

Priscilia Queiroz, fundadora do Instituto Mulheres que Decidem, compartilhou em suas redes sociais um desabafo que provavelmente poderia ter sido escrito por milhares de pessoas que trabalham com impacto social.

Há 25 anos ela dedica sua vida a transformar outras vidas. O Instituto Mulheres que Decidem nasceu para formar mulheres empreendedoras, desenvolver lideranças femininas e gerar oportunidades reais para quem muitas vezes nunca teve voz.

Chegar aos 25 anos de uma organização social, no Brasil, já seria motivo suficiente para comemorar.

Mas o que chamou atenção não foi o aniversário, foi uma conversa, ou, talvez, a ausência dela.

Ao convidar um amigo de mais de duas décadas para participar da celebração, alguém que conheceu o início da sua caminhada, acompanhou suas dores, seus desafios e suas conquistas, a resposta veio dias depois.

Curta, monossilábica, sem entusiasmo, sem acolhimento.

Sem a menor demonstração de que aquela história construída ao longo de tantos anos ainda possuía algum significado.

Talvez aquela pessoa nem imagine o peso daquela resposta, ou da falta dela.

Porque nem sempre machuca o “não”, às vezes machuca o silêncio, machuca não saber se a mensagem foi realmente lida, se o áudio foi ouvido, se existe tempo para responder quem um dia foi importante.

E foi então que me dei conta de que talvez este não seja um problema da Priscilia, mas sim um problema nosso.

A superficialidade virou cultura

As redes sociais nos convenceram de que estar conectado é suficiente. Não é!

Responder não é conversar.

Curtir não é apoiar.

Compartilhar não é participar.

E seguir alguém não significa caminhar ao lado dessa pessoa.

Estamos vivendo uma estranha contradição.

Nunca houve tantas pessoas defendendo causas.

Nunca existiram tantos projetos sociais.

Nunca se falou tanto sobre propósito.

Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil encontrar disponibilidade genuína.

Vivemos uma época em que até as causas parecem ter sido transformadas em produto, algumas geram autoridade, outras geram seguidores.

Algumas geram contratos, outras geram influência.

Enquanto isso, existem pessoas que continuam fazendo o trabalho silencioso.

Sem palco, sem algoritmo, sem glamour!

Porque acreditam que transformar vidas nunca foi um modelo de negócio. Foi uma escolha.

O custo invisível de quem serve

Quem trabalha há anos no terceiro setor conhece uma verdade pouco comentada.

Não é a falta de dinheiro que mais desgasta, é a falta de reciprocidade.

É perceber que muitos aparecem para fotografar o impacto, mas poucos permanecem para construí-lo.

É descobrir que alguns defendem bandeiras enquanto elas dão visibilidade.

Mas desaparecem quando a única coisa necessária é presença.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Quem respondeu?” Mas:

Quem permaneceu?

Porque permanecer exige algo raro nos dias atuais.

Tempo, interesse, afeto.

A provocação da semana

Talvez a maior crise do nosso tempo não seja econômica, nem tecnológica, ela é relacional!

Estamos aprendendo a falar com milhares de pessoas.

Mas estamos desaprendendo a cuidar das poucas que realmente fizeram parte da nossa história.

E isso deveria nos preocupar.

Porque nenhuma inteligência artificial será capaz de substituir uma mensagem enviada na hora certa.

Nenhum algoritmo será capaz de reproduzir o valor de alguém que responde com presença.

Nenhuma tecnologia conseguirá fabricar aquilo que sempre sustentou as grandes relações humanas:

consideração.

No fim, talvez o legado não pertença a quem acumulou seguidores.

Mas a quem nunca deixou ninguém falando sozinho.

Provocação final

Quando foi a última vez que você respondeu alguém não por obrigação, mas porque aquela pessoa realmente importava para a sua história?

Sobre Sílvia Fagá

Consultora de Marketing e Inovação com uma sólida trajetória em TI, com experiência global na gestão de projetos e equipes em empresas multinacionais; sua crença inabalável no sucesso, inspira empreendedores a conquistar seus sonhos, independentemente das adversidades.

Aviso de responsabilidade: Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade e autoria dos colunistas. O portal ajoiabrasil.com.br não se responsabiliza pelo conteúdo, ideias ou posicionamentos expressos nos textos.