Uma cidade limpa, organizada e visualmente agradável transmite eficiência, respeito pelo cidadão e autoestima coletiva. Uma cidade descuidada transmite exatamente o contrário
Há algum tempo venho me perguntando se estou ficando mais exigente com a idade ou se, de fato, Belo Horizonte está se tornando uma cidade cada vez menos cuidadosa consigo mesma.
Hoje, ao percorrer mais uma vez a Avenida Cristiano Machado, principal porta de entrada da capital para quem chega pelo Aeroporto Internacional de Confins, tive a certeza de que o problema não está no meu olhar. Está na cidade.
A Cristiano Machado deveria ser um cartão de visitas. É por ela que milhares de turistas, empresários, investidores e visitantes têm o primeiro contato com Belo Horizonte. No entanto, a impressão que recebem está muito distante da cidade acolhedora e bonita que os belo-horizontinos gostam de exaltar e que o estadista e ex-prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, planejou.
O que se vê ao longo da avenida é um retrato do abandono estético. Mato crescendo nos canteiros centrais, como se o paisagismo tivesse sido definitivamente esquecido ou não tivesse qualquer importância. Grades de proteção das pistas centrais do Move quebradas e denunciando o descaso do poder público, formando um cenário que lembra uma boca banguela.
Pichações espalhadas por toda parte, sinalização deficiente, remendos no asfalto parecendo uma colcha de retalho, obras inacabadas e uma completa ausência de harmonia visual. Até mesmo o traçado das faixas de rolamento parece improvisado. Em alguns trechos elas alargam, em outros afunilam sem qualquer padrão, dando a impressão de uma obra feita às pressas e sem compromisso com a qualidade.
A sensação é de que cada intervenção foi realizada isoladamente, sem planejamento urbano e sem qualquer preocupação estética. Em determinados pontos, a avenida mais parece um cenário de Bedrock, a cidade dos Flintstones. O problema vai além da conservação. Falta uma visão de cidade. Falta sensibilidade para compreender que o espaço urbano também comunica.
Uma cidade limpa, organizada e visualmente agradável transmite eficiência, respeito pelo cidadão e autoestima coletiva. Uma cidade descuidada transmite exatamente o contrário. Não se trata de luxo nem de vaidade. Trata-se de gestão pública. Manutenção, paisagismo, limpeza, padronização visual e preservação dos espaços públicos são responsabilidades básicas de qualquer administração que pretenda oferecer qualidade de vida e fortalecer a imagem da cidade.
Belo Horizonte possui uma história admirável, uma arquitetura rica, excelentes áreas verdes e um povo reconhecido pela hospitalidade. Mas nada disso é suficiente quando o poder público demonstra tão pouco compromisso com a aparência da cidade. A primeira impressão continua sendo determinante. E ela hoje é a pior que já existiu.
A pergunta que fica é simples: será que os gestores percorrem a Cristiano Machado com os mesmos olhos de quem chega pela primeira vez à capital? Conseguem perceber a degradação que se tornou parte da paisagem? Ou já naturalizamos a feiura a ponto de deixarmos de enxergá-la?
Porque, sinceramente, não acredito que seja apenas coisa da minha cabeça. Tenho a impressão de que Belo Horizonte está perdendo, pouco a pouco, a capacidade de encantar. E isso talvez seja um dos sinais mais preocupantes de uma cidade que deixou de cuidar da própria identidade.
Desafio aos gestores públicos: que percorram a Cristiano Machado sem olhar para o whatsapp, de janelas abertas, olhando para a paisagem urbana. Talvez seja esse o exercício que falta para perceber que cuidar da estética urbana também é cuidar das pessoas, é ter compromisso com a qualidade de vida e com o futuro da cidade.
Fica o convite para o prefeito Álvaro Damião, para o presidente da Câmara Municipal e para os responsáveis pelo planejamento e embelezamento da cidade, se eles existirem.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
