Artista plástico Mauro Rocha
Mauro Rocha carrega a capital mineira nas mãos, onde começou toda sua vida artística (Fotos: Arquivo Pessoal)

Do concreto à maresia: Mauro Rocha troca as montanhas de Minas pelo mar da Bahia

Nascido em Belo Horizonte em 1965, Mauro Rocha carrega a capital mineira nas mãos. Foi ali que tudo começou. Foi ali que aprendeu a olhar o mundo com a intensidade que virou sua marca.

Mas foi no mundo que ele se formou de verdade.

Em 1990 trocou BH por Bruxelas, a capital da Europa. Um ano depois ingressou na Academia de Belas Artes Jean Jacques Gaillard. E dali em diante vieram décadas de estudo e estrada: Suíça, Marselha, Dinamarca, Holanda, Portugal e Marrocos. Uma formação que não se fez em uma escola só, mas no contato com luzes, cheiros e gente diferentes.

Ao longo desse tempo Mauro construiu uma linguagem própria. Inconfundível. Se você tirar a assinatura da tela, ainda reconhece: são as pinceladas carregadas de tinta, o empastamento, o gesto e a cor.

“Essas são as características da minha pintura”, diz.

É uma pintura de camadas, de cores intensas e de uma busca constante por sentido nas coisas do cotidiano.

A virada: do concreto para o mar

Agora o artista anuncia uma nova fase. Troca as montanhas de Minas pelos coqueiros e barcos de pesca do litoral sul da Bahia. Troca o concreto pela maresia.

A escolha não foi por acaso.

“É pela tranquilidade do mar e pela temática litorânea que sempre me atraiu muito”, explica.

O novo ateliê será em Prado (BA), numa casa recém-adquirida que está passando por reforma. Enquanto isso, ele já pinta ao ar livre e registra novas imagens. O plano é inaugurar o espaço com uma série de temas novos.

O ritmo? “Seria de um frenesi criativo”.

E essa mudança muda tudo e não muda nada. Muda a luz, a paleta, os temas.

“Permanecer fiel a pintar a vida à beira-mar sempre foi um desejo meu, além das montanhas de Minas”, destaca.

Mas não muda a obsessão: pintar. Essa continua a mesma.

O processo e os temas que perseguem Mauro Rocha

Perguntado sobre o que o move há anos, Mauro lista: pesca, o cotidiano dos pescadores, músicos e personagens imaginários que nascem quando ele começa a desenhar a partir da imaginação.

“Pintura, para mim, é infinita”, diz.

Ele conta que raramente transforma um acidente em obra. Mas o próprio processo já é um acidente bonito:

“Começar uma tela com uma cor e terminar com outra. Talvez aí esteja o acidente”.

E se tivesse que salvar só uma obra do fogo? Escolheria uma tela de 15 anos atrás:

“Porque ela representaria minha ruptura com o conceito acadêmico de fazer arte, de maneira bem-sucedida”.

Infelizmente nem foto tem mais. Ficou só na memória e na história.

Viver de arte fora do eixo

Mauro Rocha vendeu obras em Minas, São Paulo, Rio, Europa e Marrocos. Para ele, o melhor lugar para ser artista é onde há maior fluxo de turistas. Mas reconhece os desafios de estar fora do eixo SP-RJ.

Mesmo assim, já recebeu convites para expor em São Paulo e Brasília a partir da Bahia.

Sobre o papel do artista brasileiro em 2026, ele é direto:

“Tento sempre separar a arte da política. A arte como função social acho muito importante. Mas usar a arte como ferramenta política a favor de partidos ou ideologias faz perder sua beleza”.

E quanto à tecnologia? IA não entra no processo.

“Minha pintura brota do gesto e do instinto de pintar”. As redes têm sua função, mas o que comanda é a mão”, avalia.

O legado de Mauro Rocha

Sonhava em viver de arte desde a infância. E realizou.

Para quem compra sua arte, ele espera que se perceba o que está por trás do valor:

“Imprimi meus sentimentos de artista através da cor, do gesto e do tema”.

Daqui a 30 anos, gostaria que dissessem uma coisa só:

“Que me entreguei por inteiro ao meu sonho de fazer arte em todas as etapas da minha vida”.

O projeto agora é produzir com mais tempo e tranquilidade no litoral para ter corpo de obra suficiente para novas exposições. E no futuro, livros de arte também estão no forno.

De BH para Bruxelas. De Bruxelas para o mundo. E agora, do mundo para o litoral da Bahia.

Mauro Rocha segue trocando de cenário, mas não de essência. Continua sendo aquele menino de Belo Horizonte que decidiu, ainda criança, que ia viver de arte. E vive. Com tinta nas mãos, cor no peito e o mar como nova tela.

Sobre Arilda Costa McClive

Arilda Costa McClive
Jornalista, fotógrafa e curadora de artes radicada nos EUA. Há 20 anos escreve sobre cultura, artes e entrevistas para o Brazilian Times Newspaper onde assina em coluna social. Em 2015 recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Brasileira de NY, por promover a cultura brasileira em nível de excelência. É associada fundadora da AJOIA Brasil.

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