Documentos, postagens, conversas e um inquérito policial revelam uma sequência de contatos entre o líder do MBL, um perfil que publicou conteúdo racista e de exaltação a Hitler e interlocutores da direita americana; material incorporado aos autos identifica o responsável pela conta como “Emmanuel”, mas a identidade ainda não foi confirmada por perícia

Em setembro de 2025, um perfil do X chamado The Phallic Man publicou na revista britânica J’Accuse um artigo dedicado a Renan Santos, ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao Partido Missão. Nas semanas seguintes, o mesmo perfil promoveu Renan diante de uma audiência estrangeira, ofereceu despesas de viagem e hospedagem para levar um colaborador da publicação ao Congresso Nacional do Missão e participou da articulação que aproximou o grupo brasileiro de integrantes da chamada “novíssima direita” americana.
Em outubro, Renan viajou aos Estados Unidos. Ao retornar, relatou que o artigo havia despertado interesse naquele meio e que os contatos realizados durante a viagem o levaram a uma sucessão de apresentações.
Na mesma época, Eumenes, que acompanhava Renan na viagem, publicou uma afirmação ainda mais direta: ele e The Phallic Man haviam passado “a semana inteira conversando” com Renan.
Meses depois, um novo elemento apareceu em um lugar inesperado.
Material incorporado a um inquérito policial instaurado depois de um boletim de ocorrência registrado pelo advogado de Renan identifica a conta @ThePhallicMan como pertencente a alguém chamado “Emmanuel”.
Paralelamente, outro conjunto de documentos obtidos por esta reportagem apresenta Emanuel Telles Chaves circulando nesse mesmo ambiente e se identificando, em comunicação preservada por uma fonte, como “Chief of Staff” de Renan Santos e diretor do MBL nos Estados Unidos.
Nenhum desses elementos, isoladamente, permite afirmar que Emanuel Telles Chaves seja The Phallic Man. Tampouco permite afirmar que Renan soubesse quem estava por trás do pseudônimo.
Mas, reunidos em ordem cronológica, documentos, postagens, conversas, declarações públicas e peças do inquérito revelam uma rede de relações que produz duas perguntas centrais: quem era The Phallic Man e, caso fosse Emanuel, quando Renan soube disso?
A resposta é particularmente relevante porque, em abril de 2026, questionado pelo Metrópoles sobre quem estava por trás da conta, Renan afirmou que não sabia.

O artigo que abriu portas
Em 14 de setembro de 2025, a J’Accuse publicou Meritocracy in Brazil, assinado por The Phallic Man e Hansa Rudolf.
O texto descrevia a formação do MBL, a criação do Missão, a estrutura organizacional do movimento e a liderança de Renan Santos. O artigo apresentava o grupo brasileiro a uma audiência ligada à nova direita dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Renan ajudou a divulgar o conteúdo.
Capturas preservadas no acervo desta reportagem registram sua conta compartilhando o artigo e amplificando publicações sobre ele. Uma delas mostra a indicação “Renan Santos reposted” sobre uma postagem de Eumenes que dizia:
“O artigo com maior engajamento da J’Accuse nesse ano é sobre o Partido Missão.”
O dossiê documental registra a divulgação como uma “ação positiva e documentada” de circulação do texto, ressalvando corretamente que compartilhar o artigo não significa concordar com todas as ideias nele contidas.
Meses depois, ao ser questionado pelo Metrópoles, Renan disse que o artigo havia ficado “muito bom” e afirmou que seu autor acertava “em muitos pontos”. Ao mesmo tempo, rejeitou a ideia de que The Phallic Man falasse em nome do Missão. (Metrópoles)
A aproximação, entretanto, não começou nem terminou com o artigo.
Um dia antes da publicação, em 13 de setembro, The Phallic Man havia convidado um colaborador da J’Accuse para participar do Congresso Nacional do Missão, marcado para novembro no Brasil.
Na mensagem, ofereceu o pagamento da viagem e da hospedagem.
O perfil escreveu que “nós” pagaríamos as despesas, mas não esclareceu quem estava incluído nesse pronome. Por isso, o documento não permite atribuir a oferta ao Partido Missão ou a Renan.

De autor do artigo a articulador internacional
Depois da publicação, The Phallic Man continuou promovendo Renan e o Missão.
Em 21 de setembro, segundo captura preservada no acervo, o perfil apresentou Renan a uma audiência estrangeira como um potencial candidato presidencial e tentou viabilizar sua participação em um podcast.
O dossiê classifica o registro como evidência forte de uma iniciativa de promoção de Renan perante a audiência política americana.
Outras postagens mostram que o interesse era recorrente.
Em setembro, The Phallic Man acompanhava publicamente o desenvolvimento do Missão, associava o novo partido a Renan e à J’Accuse e utilizava o modelo organizacional brasileiro como referência. Em uma publicação, sugeriu que a França poderia criar uma “Fullstack Party à la Missão”.
O perfil, portanto, não aparece no conjunto documental apenas como um comentarista que escreveu ocasionalmente sobre política brasileira.
Há uma sequência de promoção, divulgação e tentativa de construção de conexões internacionais.
E isso importa por causa do restante do conteúdo publicado pela mesma conta.
Hitler, raça e violência
The Phallic Man mantinha um histórico de manifestações extremistas muito anterior à publicação sobre o Missão.
Capturas preservadas no acervo registram sucessivas referências elogiosas ou reverenciais a Adolf Hitler.
Em abril de 2023, a conta publicou uma frase se apresentando como alguém que prepararia o caminho para um “Hitler por vir”. Em maio, publicou uma imagem de Hitler acompanhada de outra referência elogiosa. Em julho, escreveu que Hitler seria o único ator político do século 20.
Há ainda publicações com linguagem eugenista, manifestações racistas e conteúdo violento.
Em setembro de 2025 — justamente no período em que promovia o Missão — a conta publicou que pessoas com mais de 60 anos representariam um risco à segurança nacional e associou uma eventual vitória do partido brasileiro à “aniquilação” da vida nas favelas.
O Metrópoles documentou parte dessas manifestações em abril, incluindo referências a extermínio racial, Hitler e a expressão “Kill the Old”. (Metrópoles)
Essas manifestações pertencem ao The Phallic Man. Não há, no material analisado, base para atribuí-las a Renan Santos ou afirmar que ele concordasse com elas.
A distinção é fundamental.
A questão jornalística não é transferir automaticamente as ideias de um perfil para alguém que teve contato com ele. A questão é estabelecer qual era a natureza da relação, quem operava a conta e o que os envolvidos sabiam sobre essa identidade.
A viagem aos Estados Unidos
Em outubro de 2025, Renan viajou aos Estados Unidos acompanhado de Eumenes.
Depois da viagem, Renan relatou em uma live que o artigo publicado pela J’Accuse havia alcançado a direita americana.
Segundo relato reproduzido pelo Metrópoles, Renan disse que as pessoas com quem se encontrou conheciam o trabalho do MBL justamente por causa do texto de The Phallic Man. Contou ainda que um contato levava a outro e afirmou ter “gabaritado” nomes interessantes daquele ambiente político. (Metrópoles)
Em 20 de outubro de 2025, Eumenes publicou algo ainda mais específico:
“Eu e o @ThePhallicMan passamos a semana inteira conversando com ele sobre essas coisas.”
A referência era a Renan.
Na sequência da publicação, Eumenes descreveu os assuntos dessas conversas: futebol, novelas, cinema brasileiro, cultura de festas dos anos 2000 e “groyperism”.
Também escreveu que havia conhecido Renan pessoalmente e afirmou que, até cerca de quatro meses antes, não tinha ligação com o MBL.
A publicação foi posteriormente reproduzida pelo Metrópoles. (Metrópoles)
O registro permite afirmar que Eumenes declarou publicamente ter passado a semana, juntamente com The Phallic Man, conversando com Renan.
Não permite afirmar, sozinho, que Renan soubesse a identidade civil de The Phallic Man.
Essa diferença se tornaria decisiva meses depois.
Uma rede anterior
A aproximação com personagens e autores ligados à nova direita americana não surgiu em outubro de 2025.
O material preservado registra que, em dezembro de 2022, Renan já havia incluído Curtis Yarvin, Peter Thiel, Elon Musk e “um modelo diferente de monarquia” entre temas que seriam pesquisados por sua equipe.
O registro comprova interesse e pesquisa. Não comprova adesão às ideias desses autores.
Outro conjunto documental mostra Renan participando, a partir de setembro de 2024, de um grupo privado no Instagram denominado CanniPapo.
No grupo, Renan recomendou a leitura da revista Valete e perguntou aos participantes se conheciam autores como BAP e Jason Reza Jorjani. Também escreveu que aquelas eram as pessoas que o grupo estava procurando encontrar por meio da publicação.
O arquivo contém ainda grande quantidade de manifestações racistas, antissemitas, referências ao nazismo e conteúdo violento produzidos por outros integrantes.
A presença de Renan no grupo não permite atribuir essas mensagens a ele.
O próprio dossiê documental faz essa ressalva expressamente: autoria individual precisa ser preservada, e as manifestações de terceiros não podem ser transformadas em declarações de Renan.
Em abril de 2026, quando o Metrópoles publicou parte das conversas, o veículo informou que Renan confirmou a autenticidade das mensagens dele apresentadas pela reportagem e respondeu individualmente sobre elas. (Metrópoles)
Yarvin chega ao Brasil
A sequência internacional ganhou outro capítulo em 29 de novembro de 2025, quando Curtis Yarvin participou de um evento do MBL em São Paulo.
Uma fotografia incluída no material desta apuração mostra um grupo de participantes do evento. Segundo as identificações fornecidas junto ao arquivo, aparecem na imagem Renan, Yarvin, Eumenes e uma pessoa identificada como “Emmanuel”.
A fotografia, isoladamente, não permite utilizar reconhecimento visual para confirmar a identidade dessa última pessoa. O registro deve ser tratado de acordo com sua legenda e com documentação adicional.
Há, entretanto, outros registros relativos a Emanuel Telles Chaves.
Um screenshot de Instagram mostra o perfil “Emanuel Telles” com a indicação de que era seguido pela conta de Renan. Outro registro profissional apresenta “Emanuel Telles Chaves” associado ao Grupo Telles, com formação e atuação acadêmica nos Estados Unidos.
Em comunicação preservada por uma fonte desta reportagem, Emanuel se apresenta como “Chief of Staff” de Renan Santos e diretor do MBL nos Estados Unidos.
Até o momento, esta reportagem não obteve confirmação institucional independente desses cargos. Por isso, eles são apresentados como autodeclaração de Emanuel, e não como função formal comprovada.
Yarvin escreve sobre o Missão
Menos de um mês depois do evento no Brasil, surgiu outro registro relevante.
Em 27 de dezembro de 2025, Curtis Yarvin publicou um texto no qual citou expressamente o Partido Missão.
Yarvin descreveu o partido brasileiro como exemplo da “young right” e afirmou, em sua avaliação, que o grupo estava aplicando com sucesso determinada concepção organizacional.
Mas fez uma ressalva igualmente importante: segundo o próprio Yarvin, o Missão não estava seguindo um plano elaborado por ele; teria chegado independentemente a uma ideia semelhante.
Qualquer reconstrução da relação precisa preservar as duas partes da declaração.
O inquérito policial
Em 26 de janeiro de 2026, outro capítulo começou longe das redes sociais.
Foi registrado no 78º Distrito Policial dos Jardins, em São Paulo, o boletim de ocorrência BI0156-1/2026.
O procedimento deu origem ao inquérito policial nº 2031151-28.2026.010342, instaurado para investigar, em tese, ameaça e extorsão contra Renan Santos.
Os investigados registrados no procedimento eram Hansa, Ian Lucas e Robberbaron. Renan figurava como vítima.
Quem compareceu inicialmente à delegacia foi o advogado Elia Roberto Fischlim, defensor de Renan.
O próprio boletim registra que o advogado requereu a instauração do inquérito e acrescenta:
“Neste ato o defensor da vítima apresenta prints das afirmações acima citadas, para ilustrar o presente registro.”
Em 29 de janeiro, Renan assinou documento ratificando a narrativa apresentada no BO e concedeu procuração ao advogado para representá-lo perante autoridades policiais.
Isso estabelece documentalmente que a representação jurídica de Renan levou capturas à Polícia.
Mas há uma diferença cronológica importante para o que aconteceria depois.
“The Phallic Man” e “Emmanuel” aparecem nos autos
Em 12 de maio de 2026, outro conjunto de evidências foi protocolado no procedimento.
Em uma das páginas, aparece a seguinte afirmação:
“@thephallicman e @hansarudolf são Emmanuel e Ian, que hoje estão junto com o MBL”.
O documento integra os autos do inquérito.
Isso é relevante, mas exige uma distinção essencial.
A frase não é uma conclusão pericial da Polícia Civil.
Sua presença no processo também não comprova, isoladamente, que Emanuel Telles Chaves administrava a conta The Phallic Man.
Trata-se de uma afirmação contida em material incorporado aos autos.
Existe ainda uma questão documental que esta reportagem procura esclarecer: quem produziu esse material e por qual caminho específico ele foi juntado ao inquérito em maio?
O BO de janeiro registra que o advogado apresentou prints naquele momento. Já o conjunto em que aparece a identificação “Emmanuel” recebeu protocolo posterior.
Não é possível, portanto, presumir que a atual numeração das páginas corresponda exatamente aos mesmos prints entregues no plantão policial em janeiro.
O advogado volta à polícia
A atuação formal do advogado de Renan no procedimento, entretanto, prosseguiu.
Em 10 de abril de 2026, Fischlim compareceu novamente à Polícia Civil como representante legal de Renan.
No termo de declarações, ratificou integralmente o histórico do boletim de ocorrência e a petição anteriormente apresentada, reafirmou a narrativa referente às ameaças e tentativas de extorsão e solicitou o prosseguimento das diligências.
Também se colocou à disposição para apresentar novos documentos e elementos informativos.
O fato comprova a representação de Renan pelo advogado e a continuidade de sua atuação no inquérito. Não permite, sozinho, atribuir ao advogado ou a Renan a autoria de todos os documentos posteriormente juntados ao procedimento.
O que Renan disse sobre The Phallic Man
Em 10 de abril, o Metrópoles perguntou diretamente a Renan se ele havia estado com a pessoa responsável por The Phallic Man durante sua viagem aos Estados Unidos.
Renan respondeu que havia encontrado muitas pessoas e afirmou não saber “quem é quem”.
Também disse não ter sido apresentado a alguém que se identificasse como The Phallic Man.
Na mesma entrevista, negou que o perfil tivesse autorização para falar em nome do Missão e disse que o partido não poderia pagar as despesas oferecidas pelo perfil ao colaborador da J’Accuse. (Metrópoles)
Essa declaração estabelece um marco temporal importante: em 10 de abril de 2026, Renan dizia publicamente não saber quem estava por trás de The Phallic Man.
A perícia ainda não terminou
Há uma frente adicional de apuração.
Uma fonte desta reportagem afirma possuir registros de voz provenientes da conta The Phallic Man e amostras atribuídas a Emanuel Telles Chaves.
Segundo a fonte, o material foi encaminhado para comparação técnica. A perícia ainda não foi concluída.
Por isso, qualquer percepção auditiva de semelhança entre as vozes não é tratada nesta reportagem como identificação.
Se houver laudo, sua força dependerá da metodologia utilizada, da origem e integridade das amostras, da cadeia de custódia e, principalmente, do grau de certeza que o próprio perito atribuir à comparação.
Até lá, a perícia não pode ser usada para afirmar que Emanuel era The Phallic Man.
O que os documentos demonstram — e o que ainda não demonstram
A cronologia permite estabelecer alguns fatos.
The Phallic Man escreveu sobre Renan e o Missão para a J’Accuse. Renan ajudou a divulgar o artigo e posteriormente elogiou parte de seu conteúdo. The Phallic Man passou a promover Renan para uma audiência estrangeira e convidou um colaborador da revista para o Congresso do Missão oferecendo viagem e hospedagem.
Em seguida, Renan viajou aos Estados Unidos.
Eumenes afirmou publicamente que ele e The Phallic Man passaram a semana conversando com Renan. Renan, por sua vez, relatou que o artigo havia despertado interesse naquele ambiente e aberto portas para novos contatos.
Pouco depois, Curtis Yarvin esteve em evento do MBL no Brasil e, em dezembro, escreveu publicamente sobre o Missão.
Emanuel Telles Chaves aparece documentalmente nesse universo de relações e, em comunicação obtida pela reportagem, apresenta-se como integrante da estrutura de Renan nos Estados Unidos.
Finalmente, meses depois, um documento incorporado ao inquérito policial aberto a partir da denúncia de Renan identifica @ThePhallicMan como “Emmanuel”.
O que essa sequência ainda não demonstra é justamente o ponto decisivo: que Emanuel Telles Chaves era efetivamente o responsável pela conta The Phallic Man e que Renan conhecia essa identidade.
Se os elos forem comprovados
Se evidências documentais ou periciais estabelecerem que Emanuel Telles Chaves controlava efetivamente The Phallic Man, a primeira questão estará respondida.
Uma segunda continuará sendo necessária: quando Renan soube?
Se for comprovado que Emanuel exercia função direta no entorno político de Renan; que era o responsável pelo perfil; e que Renan sabia que Emanuel e The Phallic Man eram a mesma pessoa enquanto mantinha interlocução com ele, a sequência documental ganhará outro significado.
E, principalmente, se houver prova de que esse conhecimento ocorreu antes de 10 de abril de 2026, haverá uma questão factual objetiva a esclarecer: a compatibilidade dessa evidência com a declaração dada por Renan naquele dia de que não sabia quem estava por trás do perfil.
Isso não autoriza antecipadamente concluir que Renan mentiu. A afirmação de uma mentira exigiria também avaliar conhecimento, contexto e intenção.
Mas permitiria confrontar documentalmente o que ele declarou publicamente com aquilo que eventualmente ficar comprovado que já sabia.
Até que esses elos sejam estabelecidos, a reportagem precisa parar exatamente onde terminam as provas.
O que já existe é uma sequência extensa de contatos, promoção política internacional, interlocução e documentos que merecem atenção.
O que falta descobrir é quem, afinal, estava por trás de The Phallic Man — e quem sabia disso.

Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados