A obediência que desistiu de pensar
Chefes militares têm sido criticados, por indignação legítima ou ressentimento, mas está na hora de olhar para os comandados (Foto: Imagem Gerada por IA)

A obediência que desistiu de pensar

Bonhoeffer, silêncio funcional e coragem moral entre homens de farda

Útil a quem?

Há quem já tenha criticado bastante os chefes militares. Alguns o fizeram por indignação legítima; outros, por ressentimento; outros ainda, por conveniência de ocasião. Talvez esteja na hora de olhar também para o outro lado da moeda: os comandados.

Não me refiro aos subordinados sem acesso à informação, formação ou condições de perceber a gravidade do que se passava. Refiro-me aos oficiais instruídos, experientes, conhecedores da história da Força, familiarizados com regulamentos, discursos de honra, juramentos, símbolos e compromissos solenes. Homens que sabiam. Homens que viram. Homens que entenderam. E, ainda assim, seguiram a vida funcional como se nada tivesse acontecido.

Esse é o ponto incômodo.

É relativamente fácil explicar a conduta dos que traem por interesse, medo, vaidade ou cálculo de carreira. Mais difícil é compreender os que, sem serem propriamente maus, acomodam-se à degradação institucional por uma combinação de disciplina deformada, prudência excessiva, espírito de corpo, medo da rejeição e dependência psicológica do grupo.

Foi pensando nisso que me veio à memória Dietrich Bonhoeffer.

Bonhoeffer foi pastor e teólogo luterano alemão, opositor da apropriação das igrejas pelo nazismo e participante da resistência contra Hitler. Preso em 1943, foi executado em 1945. Em seus escritos, especialmente nas reflexões reunidas em Depois de dez anos, procurou compreender não apenas a maldade aberta, mas também a renúncia das pessoas ao julgamento próprio quando capturadas por forças coletivas e estruturas de poder.

A comparação exige cuidado. Não se trata de equiparar épocas, regimes ou crimes históricos. Trata-se de observar um mecanismo humano recorrente: pessoas instruídas podem entregar o próprio critério a uma engrenagem institucional e continuar se percebendo como corretas, prudentes e disciplinadas.

Bonhoeffer não interessa aqui como pretexto para quebrar a disciplina. Interessa como chave para examinar algo mais profundo: a desistência voluntária de pensar dentro de grupos hierarquizados.

Ele percebeu que o colapso moral de uma sociedade não depende apenas dos perversos. Depende também dos adaptados: pessoas comuns, educadas, religiosas, socialmente respeitáveis, corretas em suas rotinas, fiéis a seus círculos e zelosas da própria reputação — mas que já não submetem ordens, conveniências e consensos ao julgamento pessoal.

Essa desistência talvez seja uma das formas mais perigosas de colapso moral. A maldade explícita ainda pode ser identificada: tem rosto, intenção, método e interesse. A obediência sem consciência, ao contrário, costuma vestir uniforme limpo, falar baixo, citar normas, aguardar a próxima promoção, preservar relações e repetir que ‘as coisas são assim mesmo’.

O homem mau sabe, em alguma medida, que está escolhendo o mal. O homem que renunciou ao julgamento próprio muitas vezes se sente virtuoso. Acredita estar sendo prudente, disciplinado, equilibrado e institucional. Talvez esteja apenas sendo útil.

Útil a quem?

Essa é a pergunta que dói.

Em instituições hierarquizadas, pensar por conta própria tem custo. O grupo oferece identidade, proteção, pertencimento e certa anestesia moral. Quem discorda sozinho perde calor humano. Quem pergunta demais vira incômodo. Quem recorda princípios passa a parecer inconveniente. Quem recusa a narrativa dominante corre o risco de ser tratado como amargo, radical, ultrapassado ou desajustado.

Então muitos se adaptam.

Não por ignorância. Por conveniência psíquica.

Preferem continuar pertencendo a um conjunto que já não respeitam inteiramente a enfrentar a solidão de uma consciência desperta. E, aos poucos, fazem uma negociação invisível consigo mesmos: calam hoje para influenciar amanhã; aceitam agora para preservar espaço depois; evitam atrito em nome da instituição; fingem normalidade para não parecer desleais.

Quando percebem, já não estão protegendo a instituição. Estão protegendo a própria permanência nela.

É nesse ponto que a disciplina deixa de ser virtude e começa a virar disfarce.

Disciplina verdadeira não é suspensão da consciência. Não é obediência bovina. Não é silêncio diante da degradação moral. Em seu sentido mais nobre, disciplina é domínio de si a serviço de uma finalidade superior. Quando a finalidade se perde, a disciplina precisa reencontrar sua alma. Caso contrário, converte-se em técnica de acomodação.

Não se trata, evidentemente, de defender motim, aventura, ruptura ou indisciplina irresponsável. Esse é o atalho infantil de quem confunde coragem com descontrole. Mas também não se pode chamar de prudência aquilo que talvez seja apenas medo bem apresentado.

Entre a rebelião irresponsável e a omissão covarde existe um campo difícil, estreito e exigente: o da consciência institucional.

É nele que se mede o verdadeiro valor moral de um oficial.

Não no discurso de formatura. Não na continência perfeita. Não na fotografia diante da tropa. Não na medalha recebida. Não na frase bonita sobre honra. Nem no brado que, repetido sem reflexão, acaba substituindo a coragem que deveria expressar.

O símbolo não é o problema. O problema começa quando ele sobrevive à substância moral que deveria sustentá-lo.

A pergunta, portanto, não é apenas por que os chefes fizeram o que fizeram. A pergunta seguinte é mais amarga: por que tantos comandados, vendo o que viam, continuaram a viver como se não vissem?

Talvez a resposta esteja menos na covardia explícita e mais na abdicação silenciosa do julgamento. A pessoa não precisa concordar com tudo para tornar-se cúmplice funcional. Basta continuar oferecendo sua normalidade, presença, assinatura, silêncio e aparência de adesão.

Há silêncios prudentes. Há silêncios estratégicos. E há silêncios que são apenas a forma educada da deserção moral.

No caso brasileiro, esta reflexão não pretende absolver chefes nem apagar responsabilidades de comando. Pretende iluminar o segundo círculo da responsabilidade: o daqueles que, formados para avaliar riscos, intenções e consequências, perceberam a deterioração e, ainda assim, preferiram manter o funcionamento cotidiano da engrenagem.

Esse segundo círculo importa porque instituições não se sustentam apenas por decisões superiores. Sustentam-se por milhares de pequenos atos de confirmação: pareceres, assinaturas, presenças, continências, silêncios, justificativas, conversas reservadas e escolhas diárias de não criar problema.

A crítica, portanto, não é dirigida ao subordinado que desconhecia. É dirigida a quem tinha informação, experiência, formação e juramento — e escolheu reduzir a própria responsabilidade ao cumprimento formal da rotina.

No fundo, talvez o problema não tenha sido falta de informação. Informação havia. Experiência havia. Formação havia. História havia. O que faltou foi outra coisa: coragem de pensar sozinho.

E talvez seja esse o convite mais duro a fazer aos que ainda se consideram homens de honra: não lhes peço grito, bravata ou gesto teatral. Peço apenas que recuperem o próprio critério. Que voltem a perguntar, em silêncio se for preciso, mas com honestidade: a quem estou servindo? O que estou ajudando a sustentar? Que preço estou pagando para continuar aceito pelos meus? E que preço a Nação paga pelo meu conforto?

Porque, em certas quadras históricas, a ignorância não é ausência de conhecimento. É escolha de sobrevivência dentro do grupo.

Quando homens formados, adultos, instruídos e juramentados escolhem não pensar para não sofrer, já não estamos diante de inocência. Estamos diante de uma obediência que desistiu da alma.

Nota de referência

A contextualização sobre Dietrich Bonhoeffer foi baseada em sua biografia e na reflexão “Depois de dez anos”, incluída em Cartas e papéis da prisão (Dietrich Bonhoeffer Works, vol. 8).

A aplicação ao oficialato brasileiro é interpretação do autor; não implica equivalência histórica entre o Brasil contemporâneo e a Alemanha nazista.

Sobre Walter Felix

Walter Felix
Coronel Veterano do Exército Brasileiro, ex-Cmt 63 Batalhão de Infantaria, Dr. Engenharia de Produção (UFSC) e ex-Assessor Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-Diretor do COMDEFESA da Fiesp.

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