As novas revelações sobre a teia de relações construída em torno de Daniel Vorcaro acrescentam um capítulo que merece escrutínio público. Reportagens publicadas na sexta-feira (18) informam que o ex-controlador do Banco Master contratou Francisco “Chiquinho” Feitosa, ex-senador e, à época dos fatos, cunhado do ministro do STF Gilmar Mendes. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Feitosa mantinha contato com Vorcaro e participou das tratativas que antecederam uma reunião no gabinete do ministro. O encontro, realizado em 11 de abril de 2024, foi confirmado pelo próprio gabinete de Gilmar.
É precisamente aqui que começa o problema institucional — não como prova de favorecimento, porque as informações disponíveis não demonstram que Gilmar tenha beneficiado Vorcaro, mas como questão de transparência e aparência de independência. Segundo as reportagens, Vorcaro negociou com Chiquinho um contrato de consultoria de R$ 500 mil mensais, além de uma parcela inicial mencionada de R$ 800 mil. As mensagens também mostram o ex-cunhado tratando de assuntos relacionados a precatórios e educação e informando Vorcaro sobre contatos envolvendo advogados. Chiquinho afirma que não foi contratado para aproximar o banqueiro de Gilmar.
O encontro no Supremo tratou de uma causa do setor sucroalcooleiro na qual o Banco Master tinha interesse econômico relacionado a créditos. A discussão envolvia cifras potencialmente bilionárias. O gabinete de Gilmar sustenta que a audiência aconteceu regularmente, em ambiente institucional, com advogados do Master, e afirma que o ministro desconhecia qualquer relação profissional entre Vorcaro e seu então cunhado. Há ainda um dado indispensável: Gilmar votou contra o interesse defendido pelo Banco Master no processo citado pelo gabinete. Esse fato precisa constar de qualquer análise responsável porque enfraquece a hipótese de que a reunião, por si só, demonstre favorecimento.
Mas um voto contrário não elimina todas as perguntas sobre a rede de acesso construída ao redor das instituições. O que merece investigação jornalística é o mecanismo: um banqueiro com interesses econômicos relevantes no Supremo mantém contrato de alto valor com pessoa que possuía vínculo familiar próximo com um ministro e consegue chegar ao gabinete dessa autoridade. Qual era exatamente o serviço contratado? Quais entregas justificavam os pagamentos? Qual foi o papel efetivamente desempenhado por Chiquinho? Essas perguntas não antecipam culpa; são consequência natural dos fatos revelados.
Também é necessário separar aquilo que está documentado daquilo que seria precipitado afirmar. Até agora, as reportagens consultadas não apresentam prova de que Gilmar recebeu dinheiro, participou do contrato, conhecia seus valores ou orientou Chiquinho a atuar em benefício de Vorcaro. O gabinete afirma expressamente que o ministro não tinha conhecimento dessas tratativas privadas e lembra que não responde pelas relações profissionais de ex-parentes.
O caso Master já mostrou como dinheiro, advocacia, relações pessoais, interesses empresariais e acesso a autoridades podem ocupar o mesmo ambiente institucional.
Quando essas conexões chegam às proximidades do Supremo, a resposta adequada não é condenação antecipada nem silêncio corporativo: é transparência integral. Ministros do STF exercem um poder enorme e, justamente por isso, situações capazes de suscitar dúvidas sobre acesso privilegiado merecem esclarecimentos públicos proporcionais à relevância do cargo.
É nesse ponto que as relações reveladas se tornam perigosas para a credibilidade institucional, independentemente de se provar ou não alguma irregularidade. Justiça não depende apenas do resultado final de um julgamento; depende também de procedimentos capazes de transmitir independência e igualdade de acesso. O país precisa saber onde termina a legítima atuação profissional e onde poderia começar uma rede de influência. No caso revelado agora, os fatos conhecidos ainda não autorizam responder essa pergunta de maneira definitiva — mas certamente justificam que ela seja feita.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados

