Com quase 30 anos de experiência em cirurgia plástica, o médico Augusto Valente acompanhou de perto o surgimento de inúmeras inovações que foram apresentadas como revoluções na área. Segundo ele, o tempo mostrou que muitas dessas promessas têm limitações.
“Por isso, acredito que toda novidade em cirurgia plástica precisa ser analisada com cautela, responsabilidade e compromisso com a segurança do paciente”, afirma.
A LipoHP e o contraponto às tendências das redes
Uma das cirurgias mais desafiadoras da carreira do médico foi realizada em sua própria esposa. Após quatro gestações, o corpo dela apresentava mudanças comuns a muitas mulheres, especialmente após a segunda gravidez.
Operar um familiar próximo não é, em geral, recomendado devido ao envolvimento emocional. No entanto, pela profundidade técnica e pela confiança no resultado, o especialista optou por realizar a Lipoaspiração de Alta Performance, a LipoHP.
A técnica atua principalmente na camada profunda da gordura e busca melhorar o contorno corporal sem criar marcas artificiais na pele. A LipoHP foi publicada recentemente na edição de agosto da “Plastic and Reconstructive Surgery” (PRS), uma das revistas científicas mais respeitadas da cirurgia plástica mundial, vinculada à Sociedade Americana de Cirurgia Plástica, da qual o Augusto Valente é membro internacional.
Para o cirurgião, a publicação também serve para corrigir uma tendência que ganhou força nas redes sociais e nos congressos: a busca por resultados com aparência muito marcada e artificial.
“Como uma técnica que se afasta de princípios básicos da lipoaspiração se popularizou tão rapidamente?”, questiona.
A resposta, segundo ele, está no poder do Instagram e do TikTok.
Na LipoHD, por exemplo, as definições abdominais são criadas artificialmente com a cânula na camada superficial de gordura. Isso gera dois problemas: tentar desenhar externamente a anatomia muscular de cada pessoa, que varia muito, e o trauma causado à pele nas chamadas áreas negativas. Ao deixar mais gordura em algumas áreas e menos em outras para simular músculos, o resultado pode ser um abdome com aparência artificial e de difícil correção com o tempo.
Imagens cirúrgicas imediatas, fotografadas ainda na mesa com óleo na pele e iluminação estratégica, criam um apelo visual forte nas redes. Elas atraem pacientes sedentários que sonham com abdômen definido sem o processo de construção de um corpo saudável.
“Corpo ‘fake’, saúde ‘fake’. Onde está a ética do médico cirurgião plástico quando a promessa visual se sobrepõe à responsabilidade com o paciente?”, provoca o médico Augusto Valente.

Tecnologia sim, mas com critério
Tecnologias como o Vaser, lipoaspiração ultrassônica que promete reduzir sangramento, e dispositivos de retração de pele como Renuvion e Ignite, podem ser úteis em casos bem selecionados. O ponto, segundo o médico, é a indicação.
“A pergunta essencial é: essas ferramentas realmente oferecem um resultado superior com menor risco, ou também passaram a funcionar como elementos de marketing nas redes sociais? O tempo dirá, pois ele não se curva a modismos”, destaca.
O cirurgião alerta ainda para a banalização de nomes comerciais:
“Quase tudo é marketing digital: oferecer avanços milagrosos, apresentar procedimentos antigos com nomes diferentes e modernos, como se fossem exclusividade de cada cirurgião.”
Ele exemplifica: Lipo 4D não tem significado científico claro:
“Ou se faz em 360 graus no tronco, que é a minha preferência, ou em partes específicas do corpo.”
Sobre a LipoHD, o médico é direto:
“Não existe paciente candidata à LipoHD. Todas deveriam considerar a LipoHP, que não escolhe pacientes e pode ser feita em diferentes biotipos”.
Ele relata ter feito a técnica apenas uma vez, a pedido insistente de uma paciente. O resultado imediato foi bom, mas a evolução pode deixar estigmas.
O maior problema, afirma, é o futuro:
“Com o envelhecimento, as partes tratadas de forma diferente certamente irão envelhecer de maneira desigual. E, uma vez realizada, a correção é impossível na maioria dos casos”.
Escolha consciente e segurança acima de tudo
Augusto Valente defende que a escolha do cirurgião não deve ser feita pelo Instagram ou pelo número de seguidores.
“A primeira imagem pode até ter sido manipulada, e os seguidores podem ter sido comprados. Cirurgiões muito jovens, com pouca experiência e técnicas ‘exclusivas’, representam maior risco. A curva de aprendizado não se compra como seguidores; só o tempo a constrói”, acredita.
Entre as tendências atuais, a lipoaspiração segue entre os procedimentos mais realizados no mundo, junto com implantes de silicone, blefaroplastia, rinoplastia e abdominoplastia. Cresceram também as cirurgias faciais parciais em pacientes jovens e a procura masculina por lipo de abdome e flancos e facelift.
Medicamentos como Ozempic e Mounjaro mudaram a abordagem da obesidade, mas podem gerar flacidez e excesso de pele que exigem correção cirúrgica bem planejada. Já a cirurgia bariátrica pode deixar o paciente com deficiências crônicas de vitaminas e ferro.
O médico também critica padrões estéticos repetidos impulsionados por influenciadores: mandíbula quadrada, bochechas projetadas, queixo pontudo e lábios aumentados:
“Zeitgeist: pessoas que, como em uma manada, seguem o mesmo caminho do líder sem saber para onde estão indo. A medicina não deve mudar por moda, sobretudo porque, na maioria das vezes, é impossível voltar ao estado original.”
Ética, formação e o futuro da especialidade
Para o médico Augusto Valente, a banalização da medicina estética é perigosa:
“A cirurgia plástica é extremamente difícil. Estamos lidando com uma pessoa saudável. Essa banalização pode levar a caminhos obscuros, que terminam, em alguns casos, em tragédia.”
Ele defende que quem tem interesse em estética siga o caminho completo: faculdade de medicina, residência e formação adequada.
“Cortar caminho pode parecer mais fácil, mas existem vários casos, inclusive de óbitos, que poderiam ser evitados”, ensina.
Entre os procedimentos mais desafiadores, cita mamoplastias e rinoplastias. As mamas, por serem estruturas pendulares, e o nariz, por estar no centro da face e ter evolução imprevisível.
Com a nova resolução do Conselho Federal de Medicina permitindo a divulgação de antes e depois, o cirurgião reforça:
“Cabe exclusivamente ao médico ético não prometer resultados. As imagens têm caráter meramente ilustrativo”.
Ao escolher um profissional, o médico recomenda observar paciência, tempo de consulta, detalhamento do plano e conversar com pacientes anteriores:
“Jamais escolha um cirurgião apenas pelo preço, pois depois pode sair muito caro tentar corrigir um mau resultado.”
E finaliza com uma frase que guia sua prática há 29 anos:
“Primum non nocere” — “primeiro, não causar dano”.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados

