Prefeitura vende eficiência enquanto uma das regiões mais importantes de Belo Horizonte enfrenta uma obra lenta, uma solução urbanística questionável e um trânsito abandonado. E parte da imprensa, alimentada pela publicidade oficial, parece ter perdido a disposição para perguntar.
Se perjúrio fosse aplicável à propaganda institucional, algumas afirmações feitas pela Prefeitura de Belo Horizonte sobre as obras viárias da capital mereceriam, no mínimo, uma investigação rigorosa. Porque uma coisa é divulgar realizações de governo. Outra, muito diferente, é utilizar dinheiro público para apresentar à população uma realidade que não corresponde ao que o cidadão vê todos os dias nas ruas.
Pressionada pelo crescente descontentamento da população com o trânsito e com a demora das intervenções, a Prefeitura passou a divulgar uma campanha publicitária para defender suas obras. O discurso é conhecido: obras estruturais incomodam, mas são necessárias e deixarão um legado para Belo Horizonte.
É verdade que grandes obras provocam transtornos. O que a propaganda não responde é se esses transtornos poderiam ser menores, se as soluções escolhidas foram as melhores e, principalmente, se os prazos são compatíveis com a urgência de uma cidade que deixou sua infraestrutura viária envelhecer durante décadas.
A Cristiano Machado expõe a contradição
O exemplo mais evidente está na Avenida Cristiano Machado, na região do Shopping Estação e da Catedral Cristo Rei. A Prefeitura apresenta a intervenção como uma obra de características subterrâneas e procura transmitir a ideia de que os trabalhos avançam de maneira praticamente invisível e ininterrupta. Mas estamos falando de uma trincheira. E trincheira não é túnel.
A distinção não é semântica. É técnica e urbanística. A solução escolhida interfere diretamente na superfície, exige grandes estruturas de contenção e produz impactos significativos no entorno. Se a intenção fosse executar uma intervenção efetivamente subterrânea, preservando de maneira muito mais ampla a superfície, a discussão deveria ter sido sobre a construção de um túnel.
Portanto, a Prefeitura precisa explicar claramente à população por que apresenta a intervenção dessa maneira e, sobretudo, por que escolheu a trincheira em vez de outras alternativas técnicas.
Também precisa demonstrar, com dados objetivos, onde está a alegada execução ininterrupta. Quem atravessa diariamente aquela região tem o direito de confrontar o discurso publicitário com aquilo que observa no canteiro. Propaganda não substitui prestação de contas.
1.050 dias para uma cidade que não pode esperar
Existe ainda uma questão muito mais grave: o prazo. Uma intervenção dessa importância não pode ser analisada apenas pelo custo direto do contrato. Cada mês adicional de congestionamentos significa horas de trabalho perdidas, combustível desperdiçado, aumento dos custos logísticos, prejuízos ao comércio, desgaste dos veículos, poluição e redução da qualidade de vida de milhares de pessoas.
Há avaliações técnicas que apontam que uma intervenção adequada, com outro modelo de execução e intensidade de trabalho, poderia ser concluída em aproximadamente 450 dias. O cronograma adotado chega a 1.050 dias. A diferença é brutal.
Da mesma forma, estimativas apresentadas sobre os impactos econômicos indiretos, feitas pelo engenheiro especialista no tema, Luiz Edmundo F. Ribeiro, que foi motivo de matéria do Portal MC em março de 2026, chegam à casa de R$ 1,5 bilhão ao longo do período de execução. Se esses números estão errados, a Prefeitura deve contestá-los tecnicamente e apresentar seus cálculos.
Com efeito, se estão corretos ou próximos da realidade, Belo Horizonte precisa saber por que aceitou uma solução capaz de impor tamanho custo indireto à sociedade. Não basta escolher a proposta de menor preço na planilha da obra. Uma obra aparentemente mais barata pode se transformar na alternativa mais cara para a cidade quando se contabilizam os prejuízos provocados durante anos de intervenções.
Enquanto a obra não termina, o cidadão é abandonado
Existe outro problema que independe da discussão sobre trincheira ou túnel. A região da Cristiano Machado, Shopping Estação, Catedral Cristo Rei e acessos a Venda Nova constitui um dos principais corredores de circulação da capital e da ligação com o Vetor Norte. Mesmo assim, nos momentos críticos, o motorista frequentemente encontra um sistema praticamente entregue à própria sorte.
Onde estão as intervenções emergenciais de engenharia de tráfego? Onde estão os agentes orientando os motoristas nos horários de maior movimento? Onde está o planejamento temporário de circulação enquanto a obra avança? Uma intervenção com duração prevista de quase três anos não pode servir de justificativa para abandonar a mobilidade da região durante quase três anos.
Administrar uma cidade significa também administrar o período da obra.
E onde está a imprensa?
Talvez essa seja a pergunta mais incômoda. Por que questões tão elementares recebem tão pouco espaço nos grandes veículos de comunicação? A Prefeitura de Belo Horizonte é anunciante relevante no mercado de comunicação. Isso, por si só, não prova interferência editorial. Mas cria uma relação que exige transparência e independência redobradas.
Quando veículos recebem recursos públicos de publicidade e, simultaneamente, deixam de questionar com profundidade decisões de enorme impacto sobre a população, é legítimo perguntar se a dependência econômica não está comprometendo o papel fiscalizador do jornalismo.
Não cabe afirmar, sem provas, que determinado veículo silencia porque recebe publicidade. Mas cabe – e é obrigação jornalística – perguntar por que tantos problemas evidentes recebem tratamento superficial justamente enquanto campanhas milionárias do poder público ocupam espaços nobres desses mesmos meios de comunicação.
Jornalismo não existe para reproduzir propaganda oficial. Jornalismo existe para confrontá-la com a realidade. É justamente nesse vazio que pequenos veículos independentes como este Portal MC ganham importância. Sem os mesmos compromissos econômicos das grandes estruturas de comunicação, podem fazer perguntas que outros preferem não fazer. Belo Horizonte merece respostas, não publicidade
A Prefeitura de Belo Horizonte tem todo o direito de divulgar suas realizações. Mas antes de investir em propaganda para explicar por que a população deve suportar os transtornos, deveria apresentar respostas objetivas: por que essa solução foi escolhida? Por que esse prazo? Quanto os congestionamentos custarão à cidade? Quais alternativas foram descartadas? E o que está sendo feito agora para reduzir o sofrimento de quem atravessa diariamente a região?
Governos passam. Campanhas publicitárias acabam. As consequências das decisões de engenharia permanecem por décadas. E uma cidade não pode ser administrada pela propaganda.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados

