Há promessas políticas que soam como escadas rolantes: prometem subir sem esforço, mas escondem o preço da descida. É com essa metáfora — usada pelo próprio entrevistado para ironizar discursos de campanha que prometem apenas “boas notícias” — que se pode resumir o tom da conversa entre o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, e representantes da Ajoia Brasil (Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados), em entrevista realizada no Palácio Fiorentino, em São Paulo.
Na conversa, com os jornalistas Dan Berg e Augusto Nunes com imagens/áudio de José Carlos Bernardi, todos da Ajoia Brasil, o tema central foi a proposta de fim da chamada escala 6×1 — regime que permite seis dias de trabalho por um de folga — e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, pautas que ganharam força no debate público nacional nos últimos meses.
Vídeo – Assista à entrevista na íntegra:
Segundo Solmucci, a discussão não é nova. A primeira proposta de mudança na jornada de trabalho teria surgido em 2015, pelas mãos do senador Paulo Paim (PT/RS) sem avançar. Uma nova tentativa veio em 2019, pelo deputado Reginaldo Lopes (PT/MG). O tema, no entanto, só ganhou repercussão nacional recentemente, impulsionado por uma articulação da deputada Erika Hilton Psol/SP) com um vereador do Rio de Janeiro.
O presidente da Abrasel destacou que a proposta representa uma inversão de posição do próprio governo: segundo ele, tanto o presidente Lula quanto o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, teriam afirmado, no fim do ano passado, que o tema não deveria ser tratado por lei, e sim por negociação entre sindicatos e trabalhadores — postura que, segundo o entrevistado, mudou a partir de janeiro.
Impacto no bolso e na produtividade
Para Solmucci, a mudança teria efeito direto sobre custos em cadeia — de condomínios a serviços essenciais —, com aumento estimado em até 20% em alguns segmentos. Ele também citou impacto sobre a produtividade nacional, já considerada baixa em comparação a outros países, e sobre a disponibilidade de mão de obra especializada em setores que dependem de funcionamento contínuo, como saúde e energia.
Para o presidente da Abrasel, nenhum país do mundo proíbe hoje a escala 6×1, e apenas cerca de 20 nações regulam formalmente a jornada semanal — a maioria reduzindo a carga horária, mas alguns, como Alemanha e Argentina, discutindo até aumento.
Um dos pontos mais enfáticos da entrevista foi a crítica à ideia de que seria possível trabalhar menos sem perda de renda. Para Solmucci, o argumento não se sustenta diante do possível repasse de custos a preços de serviços essenciais, o que reduziria o poder de compra dos trabalhadores mesmo com salário nominal mantido.
Ele também questionou a viabilidade prática da medida em setores como bares e restaurantes, onde a substituição de profissionais em escalas de revezamento nem sempre é possível, por exigir qualificação específica.
Alternativa proposta: jornada por hora
Em vez do modelo atualmente em discussão, a Abrasel defende a proposta de uma PEC apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL/RN), que prevê jornada de trabalho remunerada por hora, com garantias trabalhistas proporcionais. Segundo Solmucci, o modelo permitiria maior flexibilidade para estudantes, mães e jovens em busca do primeiro emprego, seguindo formato já adotado em países da Europa e da América do Sul.
Sobre os próximos passos da proposta no Congresso, Solmucci se disse cautelosamente otimista, citando a atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP), que teria suspendido a tramitação acelerada do texto após pressão de prefeitos — entre eles o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB/RS) — preocupados com o impacto fiscal da medida sobre os municípios.
A entrevista ainda abordou temas como informalidade no mercado de trabalho, desoneração da folha salarial e o uso da pauta como estratégia de campanha eleitoral, com o presidente da Abrasel defendendo maior diálogo entre o governo e representantes dos setores diretamente afetados antes da votação de propostas com impacto econômico tão amplo.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados

