Quando ser professor candidato se torna um desafio
Para professores candidatos ao legislativo o desafio vai muito além da busca por votos (Foto: Pixabay)

Quando ser professor candidato se torna um desafio

Professores candidatos enfrentam o desafio da pluralidade sob a pressão ideológica no ambiente acadêmico

 

A profunda divisão política e ideológica que marca o Brasil contemporâneo encontrou um terreno fértil — e muitas vezes hostil — nos corredores das universidades. Para docentes que decidem colocar seus nomes à disposição do escrutínio público como candidatos ao legislativo, o desafio vai muito além da busca por votos: esbarra na resistência e no silenciamento dentro das próprias salas de aula. Esse é o drama vivido pelos professores Lucas Evaristo, candidato à Câmara Federal, e Leandro Peters Heringer, candidato à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ambos enfrentam barreiras diárias para apresentar suas propostas entre colegas de profissão e alunos.

O cenário descrito por ambos revela um ambiente acadêmico onde a liberdade de cátedra e a pluralidade de ideias vêm perdendo espaço para a polarização.

Lucas Evaristo: Quando ser professor candidato se torna um desafio
Lucas Evaristo conta que vivenciou diversas situações de pressão velada para suprimir qualquer sinalização de posições mais conservadoras (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Para Lucas Evaristo, professor de turmas de Engenharia e Logística e instrutor de formação profissional para o setor ferroviário, o momento é desafiador. Ele relata que, ao longo de sua trajetória, vivenciou diversas situações de pressão velada para suprimir qualquer sinalização de posições mais conservadoras, especialmente quando o debate toca em temas sociais, culturais e identitários sensíveis.

“Essa experiência me mostrou que, em determinados ambientes universitários, a liberdade para expressar determinadas perspectivas pode ser tratada de maneira diferente conforme a orientação ideológica associada a elas. E isso está errado”, afirma Lucas.

O docente faz questão de ressaltar que não defende a transformação da universidade em um palanque de propaganda política para nenhuma vertente, mas exige o fim do monopólio ideológico.

Para ele, o papel do educador exige a apresentação de todas as correntes de pensamento — sejam elas conservadoras, liberais ou progressistas —, desde que baseadas em argumentos e responsabilidade.

“Minha responsabilidade é formar profissionais capazes de pensar criticamente, questionar premissas e construir suas próprias conclusões, e não reproduzir uma visão de mundo previamente determinada. Defendo uma universidade verdadeiramente plural, na qual o respeito às pessoas não exija a concordância com suas ideias e onde exista espaço legítimo para posições de direita e conservadoras”, pontua o candidato.

A blindagem de discursos

Realidade semelhante é enfrentada por Leandro Peters Heringer. Jornalista com mais de 20 anos de atuação, especialista em Comunicação, Gestão Empresarial e Marketing  Político, além de doutor em Administração, Leandro coordena o curso de especialização em Comunicação Pública e Governamental da PUC Minas. Para ele, a ciência é, por natureza, feita de questionamentos, e a pluralidade de referências teóricas é um pilar inegociável tanto para o caminhar científico quanto para a formação profissional.

 

Leandro Heringer: Quando ser professor candidato se torna um desafio
Para Leandro Heringer, o filtro ideológico ultrapassa as ementas e atinge o convívio acadêmico e a produção científica (Foto: Arquivo Pessoal)

 

No entanto, o coordenador observa um movimento contrário na prática diária, notando no mercado e no corpo discente uma atitude de polarização focada apenas em “confirmar o que se pensa, e não em evoluir”. Essa tensão reflete diretamente na relação entre professor e aluno. Leandro relata que hoje existe um cuidado extremo, até mesmo no momento de corrigir avaliações, para não ser vítima de acusações de perseguição político-partidária.

Ele relembra um episódio sintomático:

“Certa vez, recebi um trabalho que não estava de acordo com as diretrizes da avaliação. Era um trabalho panfletário, sem as referências técnicas e teóricas abordadas na disciplina. Há um cuidado para evitar um argumento que fique no raso de uma ideologia”.

A hegemonia de certas correntes também é sentida na estruturação dos cursos. Leandro cita o exemplo do  Jornalismo, onde a crítica Escola de Frankfurt é amplamente estudada, enquanto abordagens como a comportamental são escanteadas.

“Escolas americanas são tidas, não raro, como inferiores e instrumentalistas, ignorando o papel delas inclusive na consolidação de organizações e profissões da área de comunicação”, explica.

Esse filtro ideológico, segundo o professor, ultrapassa as ementas e atinge o convívio acadêmico e a produção científica. Ele lamenta que colegas com percepções políticas e visões teóricas divergentes raramente sejam convidados para eventos acadêmicos, evidenciando uma proteção a determinados discursos:

“Infelizmente, até em publicações, há uma linha editorial muitas vezes restritiva a trabalhos acadêmicos e de pesquisa, em que a pluralidade é rechaçada”.

Diante desse cenário, Leandro Heringer conclui com um apelo em defesa da essência acadêmica:

“Há de se valorizar periódicos, organizações e eventos que tenham a premissa real do fazer e do pesquisar sob a perspectiva da universidade, no sentido estrito”.

Enquanto dividem seu tempo entre a sala de aula e a corrida por uma cadeira na Câmara Federal e na ALMG, Lucas e Leandro personificam um debate urgente para a educação brasileira: a necessidade de resgatar as universidades como territórios livres para o choque de ideias, onde a divergência seja o motor do conhecimento, e não o estopim para a censura.

(*) Fonte: Portal Carta de Notícias

Sobre Willian Saliba

Associado da AJOIA Brasil, jornalista profissional desde 1970, com atuação em jornais, revistas, TV e rádios e vários prêmios recebidos no setor da comunicação.

Aviso de responsabilidade: Os artigos e opiniões publicados são de inteira responsabilidade e autoria dos colunistas. O portal ajoiabrasil.com.br não se responsabiliza pelo conteúdo, ideias ou posicionamentos expressos nos textos.