A República da Toga
Na República da Toga, a Justiça pode escorrer pelos dedos como manteiga derretida (Foto: Pixabay)

A República da Toga: a queda do juiz que julgava a si mesmo

Era uma vez o longínquo e exótico país da República de Togaúna, onde a Constituição era um livro de colorir e as leis serviam mais como sugestão estética do que como regra.

Lá reinava, perdão! Julgava, o excelentíssimo Juiz Soberaníssimo da Suprema Vara Universal, conhecido pelo povo como “Doutor Eu-Decido”. Figura singular: era ao mesmo tempo vítima, investigador, denunciante, testemunha ocular, perito técnico e, claro, juiz. Economizava tempo e contraditório. Um homem prático.

Em Togaúna, bastava o Soberaníssimo acordar com azia para nascer uma operação. Se espirrasse, era indício robusto. Se cismasse, virava prova cabal. E ai de quem ousasse perguntar onde estava a lei: ele respondia que a lei estava nele. E ponto final, com condução coercitiva e coletiva.

Acumulou poderes como quem coleciona medalhas: mandava no calendário, nas manchetes e até no humor do mercado. Tinha sob discreta chantagem o Executivo, grande parte do Legislativo, que assinava até lista de supermercado se viesse com carimbo e alguns pares do Judiciário, que preferiam a paz do silêncio ao barulho da coragem.

A mídia? Ah, a mídia da República de Togaúna! Transformou o homem em herói mitológico. Cada canetada era “histórica”, cada atropelo era “ousadia institucional”, cada abuso era “interpretação criativa da Constituição”. Passava pano com tanta dedicação que abriu uma indústria têxtil.

E tudo corria esplêndido no reino da toga… até que um banco quebrou.

O venerável Banco Realíssimo de Togaúna, pilar da prosperidade seletiva, desmoronou como castelo de cartas. E, no meio dos escombros contábeis, começaram a brotar documentos, favores, propinas discretas, jantares indecorosos, bacanais pouco republicanos e amizades caríssimas.

O castelo moral virou planilha.

Foi então que o milagre aconteceu: a mídia, sempre sensível aos ventos, foi a primeira a “reavaliar sua narrativa”. Os editoriais ficaram mais sóbrios. As manchetes perderam os adjetivos. O herói virou “controverso”. Depois vieram alguns pares togados, que redescobriram o amor à jurisprudência. E até uns poucos parlamentares, antes mudos, passaram a achar a voz.

O Soberaníssimo, hoje, está moribundo. Ainda estrebucha. Manda prender, grita alto, ameaça com inquéritos metafísicos. Mas sua autoridade escorre pelos dedos como manteiga derretida.

Em Togaúna, o povo assiste ao espetáculo com uma mistura de espanto e ironia. Descobriu-se, afinal, que poder acumulado demais pesa e que toga não é capa de super-herói.

E assim, entre autos, apartes e manchetes recicladas, ressurge um velho ditado que andava arquivado:

A justiça pode até tardar… mas, quando resolve aparecer, não pede autorização ao juiz.

Sobre Neimar Fernandes

Jornalista, Publicitário e Engenheiro; especialista em Marketing Político; Célula Mater: SUNY - State University of New York. Ex-editor e âncora nas redes Globo, Record, Manchete e Super TV.

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