Há um país curioso que acorda com a manchete de que deve quase 80% de tudo o que produz, como um pai de família que já comprometeu o salário do ano inteiro antes mesmo de o ano começar. Um país atolado em escândalos: rombos no INSS, histórias nebulosas envolvendo o Banco Master, emendas que evaporam, cifras que somem como fumaça em gabinetes com ar-condicionado.
Nesse mesmo país, a fila do hospital dobra a esquina, a escola ensina pouco e desanima muito, a segurança pública recomenda que se chegue cedo em casa e a justiça, que deveria ser bússola, virou tema de debate desconfiado até em rodas de bar. O saneamento básico ainda é privilégio em muitas regiões, luxo invisível que só faz falta quando falta.
Mas então chegam quatro dias mágicos.
Quatro dias, às vezes cinco, às vezes uma semana inteira em que a realidade tira férias. As ruas se enchem. Milhões de pessoas endividadas, exaustas, sem garantias plenas de direitos fundamentais, vestem fantasia, cantam alto, pulam como se a conta não estivesse vencida e a consulta não estivesse marcada para daqui a oito meses.
A mídia sorri. As câmeras mostram a alegria vibrante. O País vira destaque internacional: “o povo mais feliz do mundo”. E talvez seja mesmo, porque é preciso uma dose extraordinária de esperança, ou esquecimento, para dançar sobre os próprios escombros.
Não é fenômeno novo. Lá atrás, na poeira da Roma antiga, o imperador Vespasiano já compreendera o mecanismo. No imponente Coliseu, oferecia-se pão e circo. Trigo barato e espetáculo sangrento. A plebe distraída não questionava o Senado, não discutia tributos, não cobrava estradas ou reformas estruturais. O rugido da multidão abafava o ruído da decadência.
Séculos se passaram. Mudaram-se os figurinos, modernizaram-se os palcos, digitalizaram-se os aplausos. Mas a lógica persiste: quanto maior o caos estrutural, mais necessário o espetáculo. Quanto mais grave a crise, mais urgente a distração coletiva.
A pergunta que ecoa não é por que o povo se diverte. Alegria é direito e resistência. A pergunta é outra: por que mais de 150 milhões de pessoas que podem escolher seus representantes capazes de orientar e fiscalizar o uso de todos os recursos com tarifas, taxas e impostos não consegue ou não querem enxergar que festa não substitui política pública, que desfile não constrói escola, que confete não vira saneamento?
Talvez porque encarar a realidade doa mais do que dançar. Talvez porque cobrar exija coragem, organização e consciência. Ou talvez porque o pão ainda esteja chegando e o circo continua bem iluminado.
E enquanto houver música alta o suficiente, a conta pode até não desaparecer. Mas fica, por alguns dias, inaudível.
O que dizer do país onde fila do hospital dobra a esquina, a escola ensina pouco e a segurança pública recomenda que se chegue cedo em casa (Foto: Imagem Gerada por IA)
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
