A morte de Alice Ribeiro e Rodrigo Lapa é consequência da omissão que há 4 décadas mata inocentes na 381
Rodrigo Lapa e Alice Ribeiro são mais vítimas da Rodovia da Morte: omissão de décadas do poder público (Fotos: Redes Sociais)

A morte de Alice Ribeiro e Rodrigo Lapa é consequência da omissão que há quatro décadas mata inocentes na BR 381

A morte de dois colegas de imprensa em uma colisão frontal na BR-381 não pode ser tratada como mais um número em estatística fria. É consequência direta de décadas de omissão, promessas não cumpridas e negligência estrutural por parte de agentes públicos que falharam, repetidamente, em cumprir sua obrigação básica: garantir segurança mínima nas rodovias.

O trecho entre Belo Horizonte e João Monlevade, há anos conhecido pelo alto índice de acidentes, ganhou o apelido de “RODOVIA DA MORTE”, e segue como símbolo de um descaso institucional que custa vidas.

Durante quase 20 anos, denunciei, escrevi, alertei. Participei de reportagens, debates e coberturas ao lado de veículos de comunicação de toda Minas Gerais. Vi de perto colisões frontais devastadoras, e testemunhei visitas de ao menos quatro presidentes da República à rodovia, todos com discursos e promessas de solução para ontem.

Pouco ou nada foi efetivamente entregue. Mesmo após o início tardio das obras de duplicação, justamente o trecho mais crítico permaneceu abandonado, exposto à inoperância do DNIT e à omissão do governo federal.

Enquanto isso, a narrativa oficial insiste em culpar o motorista, como se imprudência fosse exceção, e não uma variável constante do comportamento humano. Toda vez que um imprudente age, leva com ele um inocente. O estado têm o dever de proteger os prudentes, dos imprudentes, com rodovias seguras e duplicadas.

A verdade é incômoda, mas precisa ser dita: rodovias de pista simples são armadilhas mortais em um País com frota crescente e veículos cada vez mais potentes. Especialistas podem apontar falhas humanas, mas ignorar o fator estrutural é, no mínimo, desonesto.

A única forma eficaz de evitar colisões frontais é a separação física dos fluxos, pistas duplicadas, independentes, seguras. O restante é paliativo. Hoje, o que separa veículos em sentidos opostos em muitas dessas rodovias são meras faixas pintadas no asfalto, cerca de 40 centímetros entre a vida e a morte.

Os números escancaram a gravidade: colisões frontais têm taxa de letalidade de aproximadamente 82%. Ou seja, a chance de sobreviver a esse tipo de acidente é mínima. Não se trata de fatalidade, mas de previsibilidade. E previsibilidade exige ação, ação que não veio no tempo certo, e que levou a jornalista Alice Ribeiro e o cinegrafista Rodrigo Lapa.

A BR-381 é apenas um exemplo entre tantas outras rodovias federais que cortam Minas Gerais, estado com a maior malha rodoviária do país, como as BRs 262, 040, 356 e 381, todas sobrecarregadas por tráfego intenso, inclusive de cargas pesadas vindas de diversas regiões do Brasil. Traçado ultrapassado e caretas bitrens que não cabe nas faixas em curvas.

É preciso nomear os responsáveis: a inércia de órgãos como o DNIT e a falta de prioridade por parte do governo federal custaram milhares de vidas ao longo de décadas. Não é mais aceitável transferir a culpa exclusivamente ao condutor enquanto o Estado falha em oferecer condições mínimas de segurança viária.

Falhas ao volante acontecem, e continuarão acontecendo. A diferença entre a vida e a morte está na infraestrutura que deveria proteger até mesmo contra o erro humano. Repito, se a 381 tivesse sido duplicada no prazo correto, os dois colegas estariam vivos. Portanto, a omissão e a prevaricação de agentes públicos é a causa das mortes de milhares de inocentes ao longo dos anos.

Que a morte da jornalista Alice Ribeiro e do cinegrafista Rodrigo Lapa não seja em vão. Que sirva como marco de ruptura com o ciclo de promessas vazias e obras eternamente adiadas. É hora de cobrar, com rigor, responsabilidade e urgência, daqueles que têm o dever legal e moral de agir.

A duplicação integral da BR-381, especialmente em seus trechos mais perigosos, não é uma obra de conveniência política: é uma medida de preservação da vida.

Como presidente da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes, faço um chamado direto em nome da AJOIA Brasil: Chega de omissão. Chega de negligência. Cada dia de atraso é mais um dia em que brasileiros seguem expostos a um risco inaceitável.

E cada nova cruz à beira da estrada será, inevitavelmente, mais uma prova do fracasso de quem deveria proteger, e não cumpriu seu dever de agente público.

Sobre José Aparecido Ribeiro

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Jornalista, presidente da AJOIA Brasil; com formação em Filosofia, Turismo, Marketing e Gestão de Recursos de Defesa; é editor do Portal Minas Conexão e âncora do Médicos pela Vida; saiba mais: www.minasconexao.com.br

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