Tem gente que escreve livros. Valdívia S. Beauchamp escreve reparação histórica. Nordestina do Recife, sobrinha de Lucas Suassuna, irmão de Ariano. Sangue de “rapsodo” (contador de história) correndo na veia. Jornalista, historiadora, romancista de Ficção Histórica, pesquisadora que não aceita silêncio quando o assunto é o Brasil que o mundo esqueceu.

Dois anos e meio de arquivo, lágrima e teimosia para parir “Parnamirim”. Porque descobriu que o Trampolim da Vitória, onde decolaram os aviões que libertaram a Europa, virou nota de rodapé.
Porque 25.300 pracinhas e 67 enfermeiras da FEB atravessaram o Atlântico às cegas, desembarcaram em Nápoles sem saber onde estavam, lutaram na Itália, renderam nazistas em Fornovo de Taro e voltaram para casa demitidos por Aviso Ministerial.
Vargas e Dutra temiam heróis. Ela não. Valdívia foi a Recife ouvir o Capitão Severino Gomes de Souza, 102 anos, nascido no RN. Ouviu o Cabo Alberides Passos, pernambucano. Trouxe eles para o livro no capítulo “Paris, Maio de 2015”.
Deu voz a quem o Brasil mandou calar em 1945. O livro saiu em seis línguas: português, inglês, francês, alemão, italiano e russo. Porque a guerra foi mundial e a memória também tem que ser.
E mais: em Massarosa, na Toscana, todo 8 de maio, italiano agradece aos “Libertadores do Nazifascismo”. E brasileiro precisa saber disso.
Conheço Valdívia há anos. E posso dizer: a historiadora é rigorosa. A mulher é maior ainda. Casada com William Furey Jr., doutor em Física por Harvard, tem nele o parceiro que entende que a concorrente, às vezes, é um livro de 1940. Que apoia mesmo sem falar português.
Agora ela lança “Kaffeekantate”, bilíngue. Junta Gertrude Bell, a inglesa que desenhou o Iraque, com Thomas Mann, filho de uma paratiense. Café, petróleo, Mesopotâmia e Paraty no mesmo romance. Porque Valdívia enxerga o fio que costura Paraty a Bagdá. E não solta até contar.
De 22 a 26 de julho estará na Feira de Paraty. Dia 29 na Academia de Letras da Grande São Paulo. Dia 30 na ANE. Dia 3 de agosto na Academia Pernambucana de Letras, em casa. E em setembro, pela primeira vez, na Bienal de São Paulo.
Perguntei se duvidaram dela por ser mulher escrevendo sobre guerra. Ela respondeu:
“Duvidaram de quê?” Valdívia não pede licença para entrar na História. Ela arromba a porta e acende a luz.
Entrevista a seguir. Com o respeito que a História merece e o carinho que eu tenho por essa mulher que não deixa o Brasil ser esquecido.
Alma da historiadora
Val, você e eu sabemos o que é lutar sozinha. O que te deu forças para enfrentar arquivo, preconceito e desinteresse algumas vezes, para escrever “Parnamirim”? Teve algum dia que você pensou em desistir?
Arilda, querida, sua pergunta quanto à minha escolha em escrever este livro é valiosa. Sou nordestina do meu Recife. Venho de uma família enorme, onde um dos irmãos do escritor Ariano Suassuna era o meu tio Lucas Suassuna, casado com uma irmã de minha mãe. Sim, eu prezo em contar a nossa história. Em Pernambuco, mais particularmente na Ilha de Fernando de Noronha, durante a Segunda Guerra Mundial, era onde os “policiais da base”, ou seja, os Aliados norte-americanos, exerciam sua função mantendo de lá a parte burocrática e a dinâmica no RN. O motivo maior para a produção deste livro, todavia, foi e continua sendo a omissão desta parte de nossa história internacionalmente. Pesquisei sim, e você entende disso, com muito esforço, chegando à conclusão de que o problema também era político. O presidente Franklin D. Roosevelt e o PM Winston Churchill entenderam logo que a indecisão de Vargas em apoiar ou não o Eixo era crucial para seus planos de vitória. O que fazer com esse líder da América do Sul? E daí seguiu a narrativa.
Bastidores da obra
Como amiga, eu te vi emocionada falando do Trampolim da Vitória. Conta para a gente: qual é a dor de ver um capítulo tão heroico do Brasil ser tratado como nota de rodapé?
Primeiro que tudo, gostaria de ressaltar que fiquei muito honrada pelo convite do prefeito de Parnamirim City, e pelo acolhimento do povo de Parnamirim. Ao pesquisar durante dois anos e meio este livro, cheguei à conclusão de que o contexto era mais que bélico e sim, repito, político. Veja bem, aqui nos Estados Unidos o ser humano é valorizado. Aqui o militar escolhe sua profissão. Em outras palavras, não há obrigatoriedade para servir às armas. Portanto, este ato de respeito humano foi logo reconhecido para um melhor entendimento já em 1636, como Plymouth Colony. Esta foi a primeira lei aprovada pelo Congresso Americano em defesa de qualquer soldado mutilado, sendo estes de agora em diante defendidos por esta Colônia. Constitucionalmente, o soldado teria proteção de vida pela Colônia. Depois, em 1776, durante a Revolutionary War, o Congresso providenciou pensão aos mutilados para estimular o alistamento. Em 1930, surge o Presidente Herbert Hoover consolidando os vários bureaux de veteranos na Veterans Administration (VA). Todavia, o maior desses atos ocorreu em 1944, quando o Presidente Franklin D. Roosevelt assinou a lei G.I. Bill, antecipando uma crise maior com a volta dos 16 milhões de americanos da Segunda Guerra Mundial. Interessante você me perguntar se tive a chance de conhecer algum dos veteranos da FEB. Sim, fui a Recife para entrevistar dois veteranos: o Capitão Severino Gomes de Souza, nascido no RN e hoje quase completando seus 102 anos, que reside em Recife, e o Cabo Alberides Passos, pernambucano, (falecido). Foi um encontro emocionante na Livraria Saraiva do Shopping de Boa Viagem. Os dois trouxeram familiares e tivemos um encontro caloroso. Eu os tive como personagens do livro no capítulo intitulado “Paris, Maio de 2015”. Oportunamente, fiz perguntas sobre a vida deles como pracinhas. Ouvi coisas inacreditáveis, porém contarei duas das respostas que não consigo esquecer. Para começar, essa é incrível: esses 25.300 aliados brasileiros de Infantaria e 67 enfermeiras, comandados pelo General João Batista Mascarenhas de Morais, saíram do porto do Brasil em 5 escalões de embarque sem explicar nada aos pracinhas quanto ao local de chegada do outro lado. Sim, chegaram ao outro lado em Nápoles, Itália, sendo transportados por navios de transporte norte-americanos. Foram às cegas. E a segunda barbaridade se deu na volta dos pracinhas sobreviventes. O presidente Getúlio Vargas e o então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, por meio do Aviso Ministerial nº 64, em 6 de junho de 1945, fizeram uma extinção precoce da Força Expedicionária Brasileira. E isso, você que está lendo esta entrevista, aconteceu enquanto os pracinhas estavam na Itália. E para maior espanto, os dois líderes temiam que os soldados regressassem como heróis que foram, populares, e exigissem a redemocratização imediata do Brasil. Food for thought, minha amiga.
Seu marido William te acompanhou nesse projeto. Como é ter um parceiro que entende que sua “concorrente” às vezes é um livro de 1944? Qual foi o apoio dele que fez diferença?
Meu marido William Furey Jr., meu melhor amigo, tem seu doutorado em Física por Harvard. Sim, gosto de consultá-lo e, mais que isso, conto com total apoio dele. Porém ele não conhece muito da cultura e história brasileira. Uma pena, tão pouco fala português.
Brasil x Mundo
Em Genebra, quando você fala que é brasileira e escreve sobre a 2ª Guerra, qual é a reação dos europeus? Eles fazem ideia que o Brasil lutou na Itália?
Como já falei acima, esse assunto dos Aliados brasileiros na Segunda Guerra Mundial não foi divulgado internacionalmente. Todavia, temos sobre esta fase da nossa história registrada nos anais da FEB, pertinente ao local onde o Brasil rendeu os nazistas na Itália, mais especificamente na vila de Fornovo de Taro, todavia, Massarosa, tem um festival anual nesta vila, todo 8 de maio, instituído em gratidão aos esforços dos pracinhas brasileiros, conhecidos também nas demais regiões da Província de Lucca e em toda Toscana como “Libertadores do Nazifascismo na Itália”. Nobre isso, não?
Mulher, legado e futuro
Ser mulher, historiadora, escrevendo sobre guerra, um tema tão masculino. Você sentiu que duvidaram de você por ser mulher? Como respondeu a isso?
Não entendi sua pergunta, Arilda. Duvidaram de quê? Que sejam mais lidos! A propósito, o livro “Parnamirim” pode ser encontrado na Amazon em seis línguas. Nas línguas onde houve o teatro da guerra: português, inglês, francês, alemão, italiano e russo.

Depois de “Parnamirim”, qual silêncio te incomoda? Que outra história você sente que Deus está te chamando para resgatar, e por quê?
Estou sim terminando outro livro “Essencial” para o entendimento de nossa cultura. Sim, como todos os outros, é uma ficção histórica que sairá bilíngue: português/inglês. Todavia, querida, “os bastidores de um livro são um território sagrado”. Sorry! Agora deixe-me falar do meu novo livro “Kaffeekantate”, que está bilíngue em inglês/português, alemão/inglês e francês. O de francês já saiu na França. O livro estará sendo lançado na Feira de Paraty, de 22 a 26 de julho próximo. Em seguida, numa maratona literária, estarei autografando em mais três academias: Academia de Letras da Grande São Paulo, dia 29 de julho; Associação Nacional de Escritores (ANE), dia 30 de julho. E por fim, em Recife, na Academia Pernambucana de Letras, dia 3 de agosto próximo. E para minha alegria, fui convidada pela primeira vez para participar da Bienal de São Paulo em setembro, de 3 a 14. Aqui segue uma apresentação do livro: “América e Mesopotâmia — Kaffeekantate” apresenta dois personagens principais inspirados em pessoas reais: a historiadora e jornalista britânica Gertrude Bell e seu amigo íntimo Thomas Mann. O romance começa nos dias atuais, com a protagonista Gertrude Bell em casa, refletindo sobre sua vida e percebendo que havia sido enganada pela maneira árabe de pensar. Ela havia perdido sua fé e seus valores, juntamente com seu senso de continuidade. A história se desenrola desde seu primeiro envolvimento com a política imperialista do Império Britânico, passando pela transição do Império Otomano até a criação da nação do Iraque, culminando com a coroação do rei Faisal I. Famosa por suas discussões com Winston Churchill, ela se torna uma ponte entre o Reino Unido e a Mesopotâmia em um momento crucial da história política, quando a Grã-Bretanha tentava implantar a democracia na Mesopotâmia. Outros personagens do romance incluem os intelectuais chamados de “Grupo dos Seis”, do qual Bell fazia parte. O “Grupo dos Seis” representa como os “barões do café” criaram uma cultura refinada e elegante composta por pessoas que não têm continuidade em suas vidas. O tipo de classe que floresce em uma sociedade feudal. Nesse cenário, Thomas Mann nasce de Julia, natural de Paraty. Kaffeekantate também é um romance de duas vozes distintas: uma é a de Gertrude Bell; a outra pertence à mídia coletiva, que julga e condena as ações de Bell. Essa voz, separada da história principal, está intercalada ao longo do romance, assombrando Bell do início ao fim como um fantasma invisível, criticando sua atitude em relação ao próprio governo britânico. Esse cenário invoca o leitmotiv dessa importante fusão da cultura das plantações de café do século XX com a cultura que a conforta no fim de sua vida. Todo esse conceito de uma visão única de eventos históricos importantes levou à união do café, da alta cultura e dos conflitos petrolíferos do Oriente Médio, refletidos no século XXI. “Kaffeekantate: um entrelaçamento das vidas de Gertrude Bell e Thomas Mann”. A mãe do autor alemão Thomas Mann nasceu em Paraty, Brasil, o coração da alta cultura do café. Mann teve sua vida entrelaçada com a erudita britânica conhecedora da língua árabe e amiga Gertrude Bell, e o romance histórico retrata a fusão da cultura do café com eventos históricos no Oriente Médio, levando a conflitos petrolíferos que persistem até o século XXI. O nome “Kaffeekantate” vem de uma ópera cômica escrita por Johann Sebastian Bach.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados



