O uso da linguagem é uma estratégia poderosa desde os primórdios da humanidade. No livro de Gênesis, Deus delega a Adão a tarefa de nomear todos os seres; após a criação, o passo fundamental é identificar cada criatura. Essa mesma dinâmica perpetua-se do nascimento até os dias de hoje, manifestando-se no registro civil da criança com nome e sobrenome.
A classe gramatical que dá nome aos seres, coisas, lugares, sentimentos e ideias é o substantivo. Por meio dele, define-se a substância e a essência. Não se pode denominar um mineral como vegetal, pois a ideia de “rocha” não condiz com uma folha verde, por exemplo. A substância — a essência — deve, necessariamente, harmonizar-se com a imagem. No jornalismo, o substantivo é a matéria-prima. Em termos de telejornalismo, é comum dizer “não dá para brigar com o que a imagem mostra”. O foco está no fato. Na realidade.
A linguagem possui, portanto, o poder de nomear a substância e de criar a percepção a respeito dela. A utilização de “palavras rebuscadas” ou de “jargões técnicos” pode construir uma percepção de dificuldade, especialidade e até mesmo de autoridade profissional. O chamado “juridiquês” é o exemplo clássico: termos como data venia, “corroborar” e outras expressões pouco usuais fora do tribunal afastam, para muitos, a compreensão sobre o tema e o acesso aos próprios direitos.
Na contramão desse contexto excludente, surge o movimento da “linguagem simples”. O objetivo é democratizar o acesso à informação por meio de técnicas que favoreçam o entendimento: vocabulário acessível, frases em ordem direta e o apoio de recursos visuais, como imagens e infográficos.
Contudo, a simplificação da linguagem, embora fundamental, não contempla a totalidade do empoderamento linguístico. É preciso ser capaz de dizer claramente o que é substancial. Dessa forma, torna-se necessário desconstruir a tentativa de desvincular a substância da imagem.
Atualmente, o termo “do job” populariza-se para substituir o substantivo “prostituta” ou a expressão “profissional do sexo”. A palavra “travesti” sofre processo semelhante em relação ao termo “trans”, apesar de guardarem concepções diferentes. É comum, nesse caso, haver a ponderação de travestis sobre uma possível “higienização” terminológica — uma forma de confundir e negar a essência da palavra original.

Ao referir-se à mulher como “pessoa que gesta”, ocorre uma redução da essência feminina e um negacionismo da biologia. Tratar mulheres como “mulheres cis” também carrega o risco de criar uma ‘subcategoria’ do gênero feminino — processo exemplificado pela atuação de Érika Hilton na presidência da Comissão das Mulheres na Câmara dos Deputados.
Existe a mulher. Pessoas que se identificam com outro gênero são, em essência, homens que se identificam como mulheres ou mulheres que se identificam como homens. Essa identificação subjetiva não as transforma, substancialmente, no gênero com o qual se identificam, uma vez que não há mudança genômica ou biológica.
Portanto, é necessário ter consciência da força da linguagem e da importância de sua precisão. As disputas de narrativa que tentam naturalizar distorções da realidade começam no discurso — seja ele pautado no “politicamente correto”, na inclusão ou em qualquer outra bandeira. O compromisso primário do jornalismo deve ser retratar os fatos e a realidade, mantendo o foco no que é substancial.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
