Há uma escolha política que dispensa malabarismo retórico: quando falta dinheiro — ou sobra urgência — o governo revela prioridades pelo que corta, pelo que adianta e pelo que faz questão de irrigar. E, no Brasil do terceiro mandato de Lula, a publicidade oficial virou um cano grosso, enquanto áreas essenciais continuam convivendo com o básico malfeito: insegurança cotidiana, filas e gargalos na saúde, aprendizado desigual na educação.
Os números ajudam a desmontar o discurso de “responsabilidade social” embalado em propaganda. Em 2023, a administração federal direta gastou R$ 451 milhões com publicidade (Secom e ministérios, via Sicom), segundo levantamento com base no sistema oficial. Em 2024, com dados fechados, o gasto saltou para R$ 770 milhões — um patamar muito acima do ano anterior. Já em 2025, os dados do Sicom indicavam R$ 528 milhões até 23 de dezembro (parcial, sujeito a atualização).
Paralelamente, reportagens apontaram cifras ainda maiores quando se considera o guarda-chuva mais amplo de “comunicação institucional”, chegando a R$ 876 milhões em 2025. Ou seja: mesmo quando o governo tenta enquadrar a narrativa como “informação de utilidade pública”, o volume de recursos é grande demais para ser tratado como detalhe administrativo.
O problema não é “comunicar” — é governar por campanha permanente, como se slogan substituísse política pública. Em ano pré-eleitoral, o próprio noticiário registrou a concentração de recursos em peças de “posicionamento” e “balanço”, com gastos relevantes em campanhas de imagem. E há um agravante: transparência incompleta.
Parte relevante da publicidade de estatais não aparece com o mesmo nível de detalhamento, o que impede o cidadão de enxergar o quadro inteiro e comparar custo x resultado. Enquanto isso, a realidade cobra: segurança pública pede inteligência, investigação e presença do Estado onde o crime manda; saúde precisa de gestão e capacidade assistencial; educação exige base forte e continuidade.
Não existe peça publicitária que compense omissão, improviso ou prioridade invertida. E quando o governo investe pesado em propaganda para “convencer” o país, passa a impressão de que tenta vender uma eficiência que não consegue entregar.
(*) Fontes dos dados: Poder360, Metrópoles e Gazeta do Povo
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
