Há dias em que o noticiário parece menos jornalismo e mais uma espécie de romance policial mal resolvido. O Brasil acorda, abre o celular, e tem a sensação de que alguém cutucou um vespeiro muito grande e saiu correndo. O zumbido fica no ar.
Fala-se de casos, investigações, versões, contra-versões. No meio disso tudo surgem boatos, suspeitas, teorias que caminham pelas redes como se fossem personagens de um enredo subterrâneo. Alguns juram que certos episódios começam a lembrar velhos fantasmas da política brasileira: histórias em que testemunhas apareciam mortas ou desapareciam, deixando um rastro de perguntas sem resposta. O exemplo que sempre volta à memória coletiva é o assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, nos anos 2000, um caso que até hoje alimenta debates, suspeitas e versões conflitantes.
E quando a história nacional começa a ecoar, ela puxa lembranças ainda mais antigas. A morte do jornalista Vladimir Herzog durante a ditadura militar permanece como símbolo de um tempo em que a verdade era disputada à força. A imagem do corpo numa cela virou cicatriz histórica: uma lembrança de que instituições e narrativas podem entrar em choque.
Hoje, em meio à confusão política, surgem rumores e comentários sobre figuras públicas, ministros, juízes, autoridades que se movem entre Brasília, aeroportos e compromissos internacionais. Nas redes sociais, qualquer viagem vira teoria. Qualquer silêncio vira suspeita. O País parece viver numa permanente sala de eco, onde fatos, interpretações e imaginação circulam juntos.
Mas o curioso é que o Brasil não está sozinho nessa sensação de instabilidade.
Lá fora, o mundo inteiro parece atravessar um momento parecido. As potências voltam a falar em guerras que ninguém queria lembrar. O Oriente Médio ferve como um braseiro antigo que nunca chegou a apagar. Diplomatas falam em equilíbrio estratégico, enquanto analistas usam palavras menos elegantes: risco, escalada, imprevisibilidade.
O velho “relógio do juízo final”, criado por cientistas para simbolizar o perigo global, continua perigosamente próximo da meia-noite.
Ao mesmo tempo, a própria Terra parece inquieta. Terremotos sacodem continentes, vulcões despertam, placas tectônicas se movem silenciosamente debaixo dos nossos pés.
Geologicamente, politicamente, religiosamente tudo parece vibrar fora de ritmo.
É como mexer num formigueiro.
Quem já fez isso na infância sabe: primeiro vem o silêncio. Depois a explosão de movimento. Milhares de formigas correndo sem direção aparente, cada uma tentando salvar algo, defender algo, entender o que aconteceu.
Agora imagine esse gesto, uma cutucada, ampliado para a escala do planeta.
Governos se reorganizam. Narrativas colidem. Povos discutem suas próprias versões da realidade. E cada pessoa, em casa, tenta entender se aquilo tudo é apenas turbulência passageira… ou o início de uma mudança de época.
No meio do caos, resta a mesma reação que nossas avós tinham diante de tempos difíceis.
Olhar para o céu, suspirar e dizer:
Misericórdia!
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
