O perdão é um dos pilares da fé cristã. O Evangelho ensina que ninguém está acima da necessidade de arrependimento e que a misericórdia deve caminhar ao lado da coerência. Quando o perdão passa a ser concedido de forma seletiva, porém, ele deixa de representar um princípio espiritual e passa a transmitir a impressão de conveniência. Recentemente, chamou a atenção a manifestação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao afirmar que o algoz de seu marido merece perdão por ser um “irmão em Cristo”. A declaração busca ressaltar um dos fundamentos da fé cristã: a disposição para perdoar.
No entanto, essa mesma postura não parece ser adotada em relação ao seu enteado, atual candidato à Presidência da República, o que suscita questionamentos sobre a consistência desse discurso.
Estaria errada em questionar alianças? Não, até porque Ciro Gomes representa não apenas oligarquia familiar que domina o Ceará e cuja situação do estado dominado pelo crime é fruto das parcerias antigas entre partidos de esquerda notadamente o PT e o PDT, que inclusive na eleição presidencial de 2017 contou com o apoio do Partido Comunista da China (PCCh) à sua campanha ao Planalto.
Logo sob este prisma a critica é valida é assertiva.
Contudo, esse debate já havia acontecido e voltar ou ser requentado em um momento pré-eleitoral dá ampla munição a estrutura que esta no poder e que tem fraturas que poderiam estar sendo expostas de forma contundente: as relações Master com a alta cúpula e a proximidade com o mandatário, o filho do mandatário e suas relações com os esquemas do INSS, e por que não relembrar que um desses filhos esteve envolto, segundo noticias da mídia em violência doméstica, assunto estrategicamente abafado.
Porém sob outro enfoque não há novidade no candidato não tão “novo” e a escolha estratégica no estado do Ceará seria pelo menos pior.
Agora se o critério para oferecer perdão é a comunhão na fé cristã, ele deveria ser aplicado de maneira uniforme, independentemente de divergências familiares, políticas ou pessoais. Quando o perdão parece alcançar uns, mas não outros, abre-se espaço para a interpretação de que o princípio está sendo condicionado por conveniências e afinidades, e não pelos ensinamentos do Evangelho.
Essa percepção pode produzir reflexos no debate público. A imagem de um tratamento desigual dentro do próprio campo conservador e cristão tende a alimentar críticas de adversários políticos, especialmente daqueles que sustentam que determinados valores morais são defendidos de forma seletiva.
Em qualquer esfera, seja religiosa ou política, a força de um discurso depende da coerência entre aquilo que se prega e aquilo que se pratica. O perdão cristão é mais convincente quando é guiado por princípios universais, e não pela identidade de quem recebe esse perdão.
Afinal, a coerência continua sendo um dos testemunhos mais eloquentes da própria fé, onde mora o perdão.
Ajoia Brasil Associação de Jornalistas Independentes e Afiliados
